Das semanas

Um curta: Caso J, José Filipe Costa, (saiba mais)
Um documentário: Tia Ciata, Mariana Campos e Raquel Beatriz, (trailer)
Um filme: Como Nossos Pais, Laís Bodansky (trailer)
Um outro filme: Bingo: O Rei das Manhãs, Daniel Rezende (trailer)
Uma peça de teatro: A Casa dos Budas Ditosos, Domingos de Oliveira (teaser e entrevista)

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Narrativas do povo negro em primeira pessoa

Olhar em perspectiva, normalmente, nos faz ter uma visão ampla sobre as coisas. A sétima arte pode ser considerada uma ferramenta que facilita esta possibilidade de observar o mundo “de fora”. Para muito além do mero entretenimento, o cinema nos auxilia a entender melhor as diferenças, quebrando preconceitos e tabus, nos fazendo rever valores, além de ser um espaço onde também podemos nos reconhecer.

O cinema educa, conscientiza, sensibiliza, nos faz pensar e sentir, nos faz reavaliar conceitos e reorganizar estruturas. Considerando a variedade de saberes apresentados nos filmes, a 2ª Mostra Cinema e Negritude, que integra a programação do 24º Festival de Cinema de Vitória, vem a público contribuir para visibilizar as narrativas do povo negro.

A mostra, com curadoria dividida entre a gestora e ativista cultural Charlene Bicalho, a assistente social e professora universitária Maria Helena Elpídio e eu, surgiu para atender a demanda crescente do trabalho de produtores e realizadores negros, ampliando assim a visibilidade desses filmes e, ao mesmo tempo, legitimando a produção destes novos cineastas.

A seleção apresenta um recorte transversal sobre as vivências contemporâneas do povo negro como as relações de afeto, questões de gênero, as novas oportunidades sociais, como as cotas étnicas, além de temas que, infelizmente, fazem parte do dia a dia de nós negros, como o racismo e o assassinato de jovens negros.

A mostra

A mostra é composta por seis curtas-metragens: três obras de ficção, um documentário, uma animação e um trabalho experimental. Tia Ciata, de Mariana Campos e Raquel Beatriz, é um documentário sobre o protagonismo feminino negro sob a ótica da personagem título, uma mulher de extrema importância para a formação da cultura brasileira, por meio do samba e das religiões de matriz africana.

Casca do Baobá, de Mariana Luíza, conta a história de uma jovem negra nascida em um quilombo, que entra em uma universidade federal pelo sistema de cotas. Por trocas de mensagens com a mãe, que mora no interior e trabalha como cortadora de cana, elas matam as saudades e refletem sobre a cidade grande, suas ancestralidades e o fim de uma era econômico-social. Ponto comum entre os curtas: mulheres na direção e um olhar delicado e apurado que entrelaça o presente e o passado.

A animação Vitor, de Darcy Alcantara, Felipe Gaze e Wolmyr Alcantara, e a ficção Na Quebrada, de José Augusto Muleta, tratam de impressões. Das primeiras impressões que julgam e padronizam as pessoas em função da raça. Em apenas um minuto, Vitor, deixa claro como o preconceito racial pode ser fruto de estigmas e ignorância. Na Quebrada, acompanha dois jovens pela comunidade, evidenciando que o que parece, na maioria das vezes, não é. O curta foi realizado em parceria com alunos da Casa da Juventude, equipamento localizado no bairro São Pedro, voltado para a formação cultural e artística dos jovens da cidade.

Outro destaque é Contraste de Disfarce, de Judeu Marcum, videoarte que reúne poesia e experimentação ao apresentar o trabalho de Marceu Rosário, poeta capixaba que vem se destacando nas áreas urbanas do país.

Caso J, de José Filipe Costa, trata de forma irônica e, ao mesmo tempo, aguda, de um dos temas mais caros da sociedade brasileira: o assassinato de jovens negros. Sem provas concretas, um grupo de advogados tenta inocentar dois policiais acusados da morte de um possível traficante, em uma metáfora onde o tribunal é um teatro e a morte pode ser uma montagem.

Esses trabalhos são um recorte da pluralidade da comunidade negra no mundo contemporâneo e apresentam, em pouco mais de uma hora, fragmentos da diversidade de narrativas afrodescendentes. Além de reafirmar a transversalidade do tema em toda a programação do festival, a mostra Cinema e Negritude confirma a sétima arte como um espaço para levantar debates e apontar caminhos para uma convivência potente entre as singularidades, onde o respeito seja a entrada franca para uma ótima sessão.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 16 de setembro de 2017.