Um Copo Vazio Cheio de Mar

LOGOTIPO2_COPODEMARDe acordo com o dicionário, a palavra tradição é um conjunto de fatos, lendas, ritos, usos e crenças, transmitidos de geração para geração, com o objetivo de manter vivas ideias e valores culturais de uma comunidade passando a fazer parte da cultura local.

Nessa perspectiva, a Ilha das Caieiras, símbolo da história capixaba, pode ser considerada a síntese de parte da cultura do Espírito Santo. Por concentrar de forma singular pratos icônicos da gastronomia regional e as memórias de quem ali vive, a região poderia ser um novo sinônimo de tradição e a tradição pode ser um mote para o contemporâneo.

O Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel Passos Lyrio, espaço constantemente voltado para celebrar e fundamentar a história da região, vai ser o elo para a tradição e a arte contemporânea tendo como fio condutor outro ponto fundamental para a história das Caieiras: o mar.

A partir deste sábado, 05 de agosto, a exposição Copo de Mar coloca em cena todos esses elementos ao trazer o mar, o alimento, a religião e seus simbolismos através do olhar e das obras dos artistas Julio Schmidt, Maruzza Valdetaro e Rosindo Torres.

No recorte proposto pela artista e curadora da exposição, Franquilandia Raft, optou-se por obras que permitissem trabalhar a imaginação e a fantasia do universo lúdico, além da harmonia estética entre os trabalhos que fazem parte do Acervo da Casa Porto das Artes Plásticas, oriundos dos Salões do Mar dos anos de 1999 e 2001.

As telas “Atum Sólido ao Natural em Água e Sal”, “Sardinhas em Molho de Tomate” e “Sardinhas em Óleo Comestível” surgem da apropriação da estética publicitária, como Andy Warhol fazia, e criam a possibilidade de reinventar aquele objeto e propor um novo olhar ao público. Com um trabalho que dialoga diretamente com a pop art, Julio Schmidt ressignificou as tradicionais latas de sardinhas ao transformá-las em obra de arte.

Além do prêmio de primeiro lugar na 3ª edição do Salão do Mar, em 2001, duas das três obras produzidas fizeram parte da exposição Still Life/ Natureza Morta, mostra coletiva que reuniu grandes nomes da arte britânica e brasileira, como Leda Catunda e Luiz Zerbini, e que esteve em cartaz na Galeria do Sesi, em São Paulo, e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, entre 2004 e 2005.

Maruzza Valdetaro usa o lúdico para vestir as sereias. Os seres mitológicos ganham vestimentas de acordo com seu posicionamento no mundo. Dessa forma, a sereia do oceano Ártico ganha uma calça branca; a do oceano Antártico, uma peça rosa; e a de calça preta escamada de dourado, é do Mar das Arábias. “Roupa de Sereia” ficou com o 3º Prêmio e Júri Popular do 3º Salão Capixaba do Mar, ao vestir e propor um novo olhar sobre as rainhas do mar.

O sincretismo religioso relacionado a figuras voltadas para o mar foi a inspiração de Rosindo Torres para a criação de “Cuidado com os Parcéis”. A instalação usa imagens de símbolos religiosos, que se parecem com as imagens vendidas nos mercados populares, para reconstruir a narrativa entre o erudito e o popular, criando um diálogo entre ícones religiosos e suas imagens padronizadas.

“Copo de Mar” é uma oportunidade ímpar de diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, potencializando uma linguagem que valoriza a diversidade sem, contudo, desconsiderar o singular. Além disso, sintetiza a ideia de que, como ocupantes desta ilha, o mar está impregnado em nós. Mar que é, ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida perspectivando o horizonte. Cada um dos trabalhos desses artistas ingere essa porção de mar, tão rica nas Caierias, que nos permite saborear suas delícias gastronômicas e brindar nossa cultura.

*Texto escrito em parceria com a artista plástica Fernanda Bellumat e originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 05 de agosto de 2017.

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