Noll

Aquele   sangue   nas   mãos   que   eu   devia   lavar   ali,   no   Guaíba.   Se   não,  desconfiariam.  Do  quê,  nem  eu  mesmo  sabia.  Lembro  que,  pouco  antes,  num lance  gratuito,  imaginara  que  tivesse  ficado  em  casa  estaria  em  melhor situação. Foi só então que vi as mãos cobertas de sangue. Olhei o rio, tentando escapar  da  circunstância.  Apesar do  estado  das  águas,  entrei  até  os  joelhos.  E  agora  só  me  restava  assobiar.  A  melodia  imprecisa,  o  dia  ameno,  parecendo  ileso. Pouco a pouco o assobio amortecia tudo. A noite logo mais me acolheria. Para que sonhar?

Sangue do Guaíba
Mínimos Múltiplos Comuns/ João Gilberto Noll/ Editora Francis/ 2003