Todas as Cores do Arco-Íris na Telona

CLOSE CERTO. A gíria usada pelo público LGBTQI+ que denomina algo assertivo e muito bem feito define bem a produção audiovisual capixaba realizada nos últimos dez anos com foco na diversidade sexual.

Este recorte temporal, segundo o cineasta, pesquisador e professor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Erly Vieira Jr, se deve ao ano de 2008, que marca um novo paradigma para a produção de filmes LGBTQI+ no cenário capixaba ao lançar a primeira experiência ficcional protagonizada por personagens LGBT’s.

Despertai, de Edson Poloni e Lorenzzo de Angeli, acompanha a vida de um grupo de amigos gays, lésbicas e trans, abordando o cotidiano de seus personagens e de seu público e tratando de, entre outros assuntos, relacionamentos amorosos e familiares, homofobia, a não-normatividade do masculino e do feminino, a aceitação e rejeição familiar, além de um timing narrativo que dialoga diretamente com a linguagem do cinema e dos seriados televisivos voltados para o público LGBT produzidos na atualidade.

“Pela primeira vez vemos esses temas serem encarados diretamente em uma produção ficcional local, e a importância disso é inegável – inclusive em termos daquilo que a teórica Mariana Baltar chama de uma “pedagogia sócio-cultural”, na qual a imagem fílmica permite ao espectador, através de partilhas e experiências mostradas na tela, aprender sobre como vivem os indivíduos não-heteronormativos” explica Erly.

Nova Geração

Esses novos realizadores, e suas produções, colocam em primeiro plano as experiências e o cotidiano de personagens LGBTs. Muitos deles tratam o assunto com total propriedade por pertencerem a este lugar de fala. Seus filmes, de forma ficcional ou documental, abrem um olhar para as vivências e humanizam as histórias deste público.

O realizador Izah Candido é diretor da websérie documental Corpo Flor (2018), que trata da transgeneridade negra para além das fronteiras do masculino e feminino, e um dos protagonistas de Transvivo (2017), documentário de Tati W. Franklin, que trata da transexualidade a partir de registros do cotidiano sobre os processos de transição de gênero, as experiências e histórias contadas por meio do audiovisual. Segundo ele, essas produções são uma das formas de atravessar o público e ampliar o discurso para o debate.

“O audiovisual é uma ferramenta que tem alcançado cada vez mais espaços por intermédio da internet e das redes sociais. É algo que circula muito e chega a vários lugares. A partir disso, os encontros são propostos e com eles os atravessamentos. Acho que é difícil as pessoas assistirem qualquer coisa sem minimamente parar para pensar sobre o assunto depois”, afirma.

Apesar de uma produção crescente de obras voltadas e sobre o público LGBT+, Izah acredita que é preciso ampliar discurso para além do tema e realizar inclusão também no mercado de trabalho: “há muita coisa sendo feita para LGBT, mas sem LGBT na produção. Precisamos pensar em lugares de fala, em protagonismo na frente e atrás das câmeras”.

Izah também defende que, cada vez mais, existam políticas públicas, como cotas e editais específicos para realizadores LGBTQI+, que estimulem e fortaleçam o discurso da diversidade: “Se só uma parcela da população, que são homens brancos cis heteronormatividade, tem feito filmes, está na hora de mudar e então, sim, sou a favor de minimamente colocarmos em pé de equidade a possibilidade de outros olhares produzirem cultura”.

Para o co-diretor e roteirista da websérie Corpo Flor, ao lado de Izah, Wan Viana – que também dirigiu Montação (2016), documentário sobre o processo de transformação de drag queens – reconhecer essas existências LGBTs, por meio da sua produção audiovisual, é uma das formas de fortalecimento para se pensar políticas que tratam da valorização e do respeito à diferença e a diversidade: “Oferecer espaço para que as pessoas possam dividir suas experiências, para que eu possa aprender mais sobre o outro e possa também levar esse conhecimento para outras pessoas”.

Mesmo sabendo das dificuldades do mercado audiovisual, Wan Viana, diz perceber uma forte presença de LGBTs nessa área: “sempre existiram, mas agora com a sensação de maior aceitação que está acontecendo no mercado, essas pessoas podem falar de si próprias de maneira mais direta. São LGBTs contando suas próprias histórias, e daí trabalhos incríveis acontecem”.

“Acredito que o incentivo em políticas públicas para a produção cultural de conteúdo LGBTQIA+ demonstre interesse do estado democrático que tais manifestações culturais continuem existindo e se fortaleçam. E daí já não tenho certeza se essa é a vontade da maior parcela dos nossos governantes” complementa Viana.

Diretor do documentário experimental XX Tape (2016), selecionado para o 25º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, e da ficção Câmera Calibre (2017), Anderson Bardot considera que a produção audiovisual é uma ferramenta de transformação humana e social por meio desses novas olhares. “Enquanto bicha, pensadora, entendo que, quando tomo a história pra mim, eu abro o meu campo de visão para além do meu ego e isso me faz entender a importância de produzir saberes através do cinema. O audiovisual pode servir de diagnóstico e até mesmo de receita para as dores sociais” acredita ele, que se prepara para dirigir a adaptação para a tela grande do espetáculo de dança Inabitáveis, da Cia In Pares.

Para Bardot, existir enquanto cineasta que se propõe a debater temas que parte da sociedade não quer discutir é viver em constante enfrentamento: “Sempre estivemos em todos os lugares, em toda a história da humanidade. Mas nunca estivemos tão despretensiosos e fluídos como agora. E isso é um resultado de lutas. Não há momento melhor para levantarmos bandeiras e dizermos com orgulhoso o que nós somos, o que sofremos, o que amamos, do que agora. Mostrar a beleza de sermos desprendidos e diferentes. E eu me sinto honrado em fazê-lo”.

A diversidade sexual no cinema capixaba

A produção audiovisual com temática LGBTQI+ está presente na história do cinema nacional desde suas décadas iniciais. De acordo com o livro O Cinema Que Ousa Dizer Seu Nome, do jornalista e cineasta Lufe Steffen, o primeiro curta gay brasileiro é Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora, lançado em 1968 e dirigido pelo manauara Djalma Limongi Batista.

Nestes 50 anos, após o lançamento do filme de Limongi, diversos trabalhos como A Rainha Diaba (1974), de Antônio Carlos da Fontoura, que coloca uma personagem travesti como chefe do tráfico; e Vera (1986), que aborda os conflitos relacionados a identidade de gênero, trataram do tema, mesmo que de forma mais espaçada.

Foi na década de 90 e, principalmente, depois da fase da retomada do cinema nacional, que uma série de realizadores assumiram seu lugar de fala e uma pluralidade de produções surgem com a proposta de debater os temas ligados à diversidade sexual.

Para o cineasta Erly Vieira Jr., desde a década de 70, já é possível perceber um olhar queer – que resumidamente pode ser definido como tudo que escapa às formulações habituais ou de senso comum – nas produções realizadas no Espírito Santo, por cineastas como Amylton de Almeida. “Podemos observar ecos de um olhar queerizante sobre a realidade social em alguns de seus documentários, como por exemplo, o senso de humor que denuncia certas convenções do poder masculino exercido sobre as prostitutas em São Sebastião dos Boêmios (1976)”.

Outros ecos queer podem ser percebidos em produções da década de 80, nos trabalhos de coletivos como o Balão Mágico e Aedes Aegyptis. Mas talvez a primeira obra audiovisual capixaba assumidamente queer seja Comida, Sexo e Morte (1992), do coletivo Éden Dionisíaco do Brasil, dirigido por Lobo Pasolini. “Nele, não somente encontra-se espaço para o exercício de sexualidades dissidentes, que até então são invisíveis no audiovisual local, como também há uma forte filiação à estética clubber tão marcante nas culturas LGBT dos anos 90”, explica Erly.

Ao longo da década de 1990 e início dos anos 2000, essa atitude e estética queer influenciou o trabalho de vários videoartistas e cineastas locais que, não necessariamente, tratavam de questões voltadas para o universo da diversidade sexual. São destaques, C33 Oscar Wilde (1999) e Jorge: o Guerreiro (2000), de Jean R.; A Festa do Bolinha (2001), de Rodrigo Linhales e Tati Rabelo; Manoela (2001), de Fabrício Coradello e Saudosa (2005), de Fabrício Coradello e Erly Vieira Jr.

Mas é depois de 2008, com Despertai, que o cinema LGBTQI+ ganha força nas produções locais apresentando uma pluralidade de temas dentro do aspecto da realidade. Neste mesmo caminho surgem Angorá (2011), de Emerson Evêncio; Você suportaria? (2013), de Sandy Vasconcelos, primeira cineasta trans capixaba. Coisa de Menino (2014), de Bipe Couto e Dayana Cordeiro e Dia de Pais (2016), de Thiago Oliveira, incluem o universo infantil dentro da temática LGBTQ+.

Nessa fase surge uma série de documentários como Homens (2008), de Lucia Caus e do paraibano Bertrand Lyra, que discute outras formas de masculinidade e feminilidade no nordeste brasileiro. Rainhas da Noite (2010) e O Aniversário de Chica Chiclete, ambos de Diego Herzog (2012), concentram-se no universo performático das drag queens e transformistas. Do Outro Lado do Arco-Íris, de Leonardo Vais e Mayara Mello (2012), resgata memórias de preconceito contra homossexuais em diversos ambientes. Já Velcro (2017), de Natália Gotardo, dá voz a casais de mulheres lésbicas, enquanto Nós (2016), de Gustavo Guilherme e Lorhana Victor, centra-se nos jovens negros.

O universo trans aparece em diversas produções. A transexualidade feminina é abordada em filmes como Eu, Mulher (2015), de Adryelisson Maduro, e Toda Noite Estarei Lá (2017), de Thiago Moulin, além de Transem Ação (2015), do ES Cineclube Diversidade. Já a transexualidade masculina é tema de Transverso (2016), de Danyllo Rocha e Nina Rocha, e do já citado Transvivo (2017), de Tati W Franklin.

Outros filmes que se destacam são Romance a la Nelson (2012), de Mariana Preti; Planície (2015), de Gabriel Perrone, o curta experimental de Fabrício Fernandez, Transcorpos (2015); Embaraçadas (2014), de Paulo Sena; e do diretor Rodrigo de Oliveira Ano Passado Eu Morri (2017) e Teobaldo Morto, Romeu Exilado (2015).

Segundo Erly, um dos filmes que melhor sintetiza o universo queer é Cartas Para Eros (2016), de Herbert Fieni, documentário ensaístico em primeira pessoa parte de imagens de arquivos e de memórias pessoais do cineasta sobre a cena LGBT capixaba dos anos 90.

“Ao promover, através da dimensão sonora e da pós-produção da imagem, um outro tipo de corporeidade a ser partilhada pelo espectador, Cartas para Eros propõe sua própria queerização do sensório, ativando memórias diversas desse ‘estar-no-mundo’ queer que por décadas tem atravessado nossas vidas. A meu ver, cabe às produções audiovisuais queer captarem e reinventarem constantemente esse imaginário”, finaliza Erly.

Em parceria com Lamartine Neto, Fieni também dirigiu Meninos do Arco-Íris (2013), curta faz da lenda do arco-íris uma metáfora para abordar as fronteiras entre os gêneros masculino e feminino.

*Texto originalmente publicado em Milímetros – Revista do Audiovisual Capixaba, Edição nº 08/ Ano 2018.

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MPBQueer e a nova identidade da música brasileira

Em tempos de representatividade, grupos sociais que sempre foram colocados em segundo plano – como os negros e as mulheres – estão cotidianamente amplificando sua voz . Dentro de coletivos, movimentos sociais e espaços de formação, a discussão e o empoderamento ganham cada vez mais força. “Minorias” que até pouco tempo eram ignoradas encontram, com muita luta, cada vez mais espaço.

A arte é um dos canais que serve de trampolim para este “abrir das portas”. O diálogo que a nova geração da música brasileira estabelece com a sexualidade e as questões de gênero e consequentemente, com a liberdade em ser o que quiser, exemplifica e desafia o que está pré-estabelecido.  Embora o rótulo não lhes caiba, o título “MPBQueer” surge como uma possível descrição sobre eles, que fogem ao senso comum sobre masculino e feminino.

Tendo como base a Teoria Queer – vertente que se popularizou a partir da publicação de “Problemas de Gênero”, da filósofa americana Judith Butler- que, resumidamente, pode ser definida como tudo que escapa às formulações habituais ou de senso comum, essa nova geração se destaca justamente pela pluralidade ao apresentar trabalhos musicais com sonoridades diversas, além de usar o corpo como plataforma para construção de novas imagens que valorizam a diversidade e ampliam o discurso relacionado às questões de gênero, em que normalmente se determina a inserção de um indivíduo na sociedade segundo normas específicas de ser “homem” ou “mulher”.

Falando sobre a música produzida no Brasil, a partir de artistas que se propõem a quebrar os padrões já determinados, é impossível não citar o nome de Ney Matogrosso. O cantor apareceu no início da década de 1970 e deixou uma interrogação na cabeça de muita gente, ao surgir com o peito peludo, dançando de forma sensual e usando uma série de elementos do universo feminino, como: maquiagem, penas e plumas, além da voz  aguda. Ney também abriu o debate para assuntos como, por exemplo, a homossexualidade, em entrevistas, músicas e na identidade visual de seu trabalho (a capa do disco “Feitiço”, de 1978).

Os novos

O pernambucano Johnny Hooker é o artista mais associado à figura de Ney Matogrosso. Suas apresentações ao vivo são sempre teatrais e arrojadas, do figurino a performance, dialogando com a estética difundida por Ney. Hooker se apropria do brega, do rock, do samba, do frevo e da passionalidade em suas canções, ao retratar as dores de amor de uma relação entre dois homens no álbum “Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!”. Jaloo, vem do Pará, mistura tecnobrega ao universo pop, em canções deliciosas como “Insight”. O visual super colorido é um híbrido de referências que misturam peças masculinas e femininas, a cultura indígena e artistas como a cantora alemã Yo Landi Vi$$er.

Dialogando diretamente com o universo tropicalista a banda As Bahias e a Cozinha Mineira flerta com o samba, a bossa nova e o clube da esquina para abordar questões femininas em letras fortes. As vocalistas Assucena Assucena e Raquel Virgínia, transexuais, são uma espécie de Gal e Bethânia contemporâneas, donas de vozes imponentes e personalidades ímpares. Com um som sujo e que bebe do rock dos anos 1980 e da new wave a banda Verónica Decide Morrer, é liderada pela transexual Verónica Valenttino. Surgida em Fortaleza, une o  visual glam e o discurso afiado está em músicas como “Bicha Invejosa” e “Testemunho de Trava”.

No Espírito Santo, a cena musical encontra representatividade nas questões de gênero e sexualidade no audiovisual. O cantor Anderson Bardot interpreta um personagem que não pertence a nenhum gênero pré-definido no videoclipe da canção “Meus Vinte Anos”. Já Silva abre o debate para o amor livre e a sexualidade fluida em “Feliz e Ponto”. No clipe, ele tem uma relação com um homem e uma mulher.  

O funk, o rap e o soul ganham voz com o trio black power Rico Dalasam, MC Linn da Quebrada e Liniker. Dalasam, que apareceu em batalhas de MC em São Paulo, reafirma em suas composições a negritude e  a homossexualidade, tanto no visual fashionista quanto nas músicas, como no rap ostentação “Riquíssima”. Linn usa a música – e o teatro – para criar um diálogo com quem, como ela, decidiu existir como bem quer. “Talento” é um exemplo do discurso reto e das rimas sem meias palavras da MC.

Mas, talvez a figura mais emblemática da nova geração seja Liniker. Criado em família de músicos na periferia paulista e com mais de cinco milhões de acessos apenas no vídeo da música “Zero”, ele não se define como “ele” ou “ela”. Negrx , usa saia, batom e turbante, e empresta sua voz grave para o recém-lançado “Remonta”, álbum em parceria com a banda Caramelows, realizado por meio de financiamento coletivo com quase o dobro da meta estabelecida.

As apresentações lotadas desses artistas confirmam o sucesso e o entendimento do público sobre essas novas propostas artísticas. Mesmo diante de um período de intenso conservadorismo pelo qual passa o país, a escolha involuntária desta geração de artistas reunidos pelo mesmo discurso – já que nunca houve um movimento organizado com o objetivo de abordar essas questões – prova que música de qualidade atrelada a possibilidade de escolher ser o que se quer, ainda gera lucros para a arte. E para a vida.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 22 de outubro de 2016, com o título “Uma Nova Identidade”.