Uma “Cantriz”

Um jantar trouxe para os holofotes a cantora Zezé Motta. Embora tenha participado, em 1975, do álbum Gerson Conrad e Zezé Motta, a personalidade musical da artista ganhou corpo no álbum intitulado, não por acaso, Zezé Motta. Logo após o lançamento do filme Xica da Silva, todas as vezes em que a artista era questionada sobre novos projetos, ela respondia: “Agora eu vou cantar”.

O desejo de soltar a voz era grande, mas ela não tinha à época nem gravadora, nem repertório e, muito menos, intimidade com o meio musical. Ao ler uma dessas entrevistas, o empresário Guilherme Araújo, um Midas do meio musical, responsável por empresariar a carreira de, entre outros, Caetano Veloso e Gal Costa resolveu organizar um jantar e apresentar a cantora Zezé para essa nova tribo. Entre os convidados estavam grandes nomes da música brasileira de ontem e hoje: Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira, Luiz Melodia.

O resultado foi um álbum de repertório eclético e que apresentou uma cantora de voz grave, carregada de dramaticidade e ironia. Entre os destaques das 11 faixas, uma das primeiras parcerias de Rita Lee e Roberto de Carvalho, Muito Prazer; o samba-funk Crioula, de Moraes Moreira; o choro Rita Baiana, de John Neschling e Geraldo Carneiro; as baladas Dores de Amores, de Luiz Melodia; e Pecado Original, de Caetano Veloso; além de canções que reforçam a identidade negra como Dengue, de Leci Brandão; e Babá Alapalá, de Gilberto Gil.

O álbum é um marco na carreira da artista e reúne arranjos de grandes músicos como Liminha, Perinho Albuquerque, Antônio Adolfo, John Neschling e Tomás Importa. Além de ter criado a identidade musical da artista, o álbum flerta com a música pop, a raiz da canção brasileira e a identidade afro-brasileira. Mas a relação da artista com a música vem desde a infância e do contexto familiar, influenciada principalmente pelo seu pai.

Em casa, sua mãe tinha um ateliê de costura e o rádio ficava constantemente ligado. Ela descobriu o fascínio pela música ouvindo Angela Maria, Nora Ney, Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Jorge Goulart, Ellen de Lima. Seu pai chegava da rua e ela ia correndo cantar as novas músicas que tinha aprendido. E ele se impressionava. “Menina, quantas vezes você ouviu essa música?” , perguntava ele. Normalmente, eram duas ou três vezes. E ele sempre destacava o bom ouvido e a afinação da filha.

Além de professor de violão, o pai de Zezé também tocava na noite carioca. Perto de completar 18 anos, a artista passou a acompanhá-lo em suas apresentações em casas noturnas do Rio de Janeiro. “Quando entrei na juventude, ele me levava para os lugares onde tocava. A primeira vez que subi ao palco para cantar, era em um local onde ele se apresentava. Ele olhou pra mim e disse: ‘Quer dar uma canja’ (risos). Foi meu pai que me descobriu como cantora”.

Entre 1979 e 1985, Zezé gravou três discos: Negritude, Dengo e Frágil Força. Os trabalhos deram continuidade ao estilo apresentado pela artista no seu primeiro trabalho, aproximando o universo pop, a música brasileira e a africanidade. Nesse período ela trouxe para o seu repertório compositores até então inéditos na sua voz, como Milton Nascimento (Bola de Meia, Bola de Gude), João Bosco (Boca de Sapo), Gonzaguinha (Sete Faces), além de visitar os repertórios de grandes mestres como Cartola (Autonomia), Assis Valente (Fez Bobagem) e Johnny Alf (Oxum). Uma curiosidade desta fase é o registro de Cana Caiana – uma das poucas canções assinadas por Maria Bethânia – parceria da baiana com a violonista Rosinha de Valença.

Quarteto Negro, lançado em 1987, apresenta dez faixas e reúne Zezé Motta a três grandes instrumentistas: o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, o baixista e violonista Jorge Degas e o percussionista Djalma Corrêa. O trabalho foi lançado nas comemorações do centenário da Abolição e aproxima o samba do afro-jazz, com destaque para “Semba”, uma recriação do ritmo angolano; “Merengue” que – como sugere o nome – flerta com o ritmo caribenho; e “Quelé Menina”, homenagem a Clementina de Jesus, que une o samba-carioca ao jongo.

O trabalho seguinte, Chave dos Segredos, foi lançado oito anos depois de Quarteto Negro. Das 14 faixas, oito são de autoria de mulheres como Jane Duboc, Suely Correia e Irinéia Maria. O álbum também apresenta Sins, música inédita de Adriana Calcanhotto, e Quero Porque Quero, parceria da cantora com Marina Lima.

Embora não seja uma compositora constante, Zezé Motta já assinou algumas belas canções. Além da parceria com Marina, a artista compôs Cais Escuro, com Paulo César Feital, para o disco Dengo; e Semba, em parceria com Jorge Degas, gravada em Quarteto Negro. Ao lado de Luiz Antônio Carvalho, Zezé escreveu a letra de uma outra canção, em cima de uma melodia de Luiz Bonfá, grande ídolo de seu pai, para a trilha do filme O Prisioneiro do Rio. A compositora Zezé Motta também foi gravada por um dos seus ídolos de infância: Cauby Peixoto. A música se chama Ousadia, uma parceria da artista com Irinéia Maria, e está no álbum Estrelas Solitárias, lançado pelo cantor em 1982.

O álbum seguinte, Divina Saudade, é uma homenagem a uma das maiores cantoras do Brasil: Elizeth Cardoso. Lançado dez anos após a morte da Divina – apelido de Elizeth –, nos anos 2000, surgiu por acaso em um dia que Zezé esbarrou na estante de sua casa com a biografia Elisete Cardoso – Uma Vida, de Sérgio Cabral. Ao ler a biografia, Zezé Motta ficou impressionada com as semelhanças entre as duas, a começar pelas coincidências astrológicas: as duas são cancerianas.

Para chegar às 17 canções que estão no álbum, 300 músicas foram ouvidas. Com produção de Roberto Menescal, o disco possui uma sonoridade sofisticada, limpa e acústica, com uma pegada “MPB de raiz”. O trabalho faz um passeio por parte da história da música brasileira e através do belíssimo e eclético repertório de Elizeth. Estão lá músicas do clássico álbum Canção do Amor Demais (Estrada Branca e Chega de Saudade), disco considerado o marco inaugural da bossa nova ao reunir canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ao lado do violão de João Gilberto; os sambas potentes da dupla Baden Powell e Vinicius de Moraes (Consolação e Tem Dó), além dos lados sambista (O Amor e a Rosa e Tristeza) e romântico (Nossos Momentos e A Noite do Meu Bem) da intérprete.

Após 11 anos sem lançar um novo trabalho musical, uma outra homenagem foi realizada pela cantora, mas desta vez a escolha recaiu sobre dois dos maiores compositores da música brasileira e contemporâneos da artista: Luiz Melodia e Jards Macalé. Melodia é um dos compositores mais constantes na discografia de Zezé. De Macalé, ela tinha gravado apenas uma canção.

A proposta para o álbum surgiu de um convite do DJ Zé Pedro, que estava lançando sua gravadora, a Joia Moderna, que, na época, só gravava mulheres. Zezé lhe disse que estava em turnê com o show O Samba Mandou Me Chamar, ao que ouviu de resposta que a proposta da gravadora era passear por outros gêneros musicais: o jazz, o blues e o rock.

Então, a artista ficou pensando em um projeto que poderia realizar para participar da empreitada do DJ. Indecisa entre gravar um álbum com a obra de Melodia ou Macalé, ligou para Zé Pedro, que respondeu de imediato: “Faça com os dois!”. O resultado foi o álbum Negra Melodia, que reconectou a artista com a irreverência, depois do classudo Divina Saudade.

Ela reapresenta 12 músicas dos grandes compositores, seis de cada autor, sem regravar canções óbvias como Pérola Negra ou Vapor Barato, ou alguma das outras que ela já havia registrado. Com uma base de guitarra, baixo, bateria e incursões de piano, percussão e sopros, ela recorre ao que nunca fez. Grandes canções, até então escondidas, como Começar pelo Recomeço (Luiz Melodia/Torquato Neto), Divina Criatura (Luiz Melodia/Papa Kid), Pano pra Manga (Jards Macalé/Xico Chaves) e The Archaic Lonely Star Blues (Jards Macalé/Duda) ganham versões robustas e ousadas, como a deslumbrante Soluções, de Jards Macalé, em que a cantriz brilha.

A definição definitiva da cantora Zezé Motta foi dada pelo DJ Zé Pedro no material de divulgação de Negra Melodia: “Zezé Motta é a rainha negra do Brasil. A mulher da pele preta que enfrentou a ditadura desse país livre e nua. Zezé é uma atriz de dar orgulho. Seu exercício de interpretar a levou para os melhores palcos, aos melhores filmes criados por aqui, aos cantos escondidos dessa terra através da televisão. Mas tem uma coisa que Zezé Motta faz ainda melhor: cantar”.

*Texto originalmente publicado em “Caderno da Homenageada: Zezé Motta”, publicação biográfica em homenagem a atriz e cantora durante a 24ª Edição do Festival de Cinema de Vitória, em setembro de 2017.

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A semana

  • Um curta: Severinas, Eliza Capai (assista)
  • Um espetáculo: Bom Sujeito, Ivna Messina (saiba mais)
  • Um filme: Resistência, Eliza Capai (trailer)
  • Um programa de TV: Espelho, com Leandra Leal (assista)
  • Uma música: I’m Coming Out, Diana Ross (ouça)
  • Uma série: Cara Gente Branca, Justin Simien (trailer)
  • Uma outra série: Scandal (6ª temporada), Shonda Rhimes (trailer)

A semana

  • Um clipe: Te Parece, Tamy (veja)
  • Um outro clipe: Fire, Beth Ditto (veja)
  • Um documentário emocionante: Strike a Pose, Ester Gould & Reijer Zwaan (trailer)
  • Um EP: Fullgás, Qinho (ouça)
  • Uma música: Estrangeiro, Caetano Veloso (ouça)
  • Uma série: 13 Reasons Why, Brian Yorkey (trailer)

MPBQueer e a nova identidade da música brasileira

Em tempos de representatividade, grupos sociais que sempre foram colocados em segundo plano – como os negros e as mulheres – estão cotidianamente amplificando sua voz . Dentro de coletivos, movimentos sociais e espaços de formação, a discussão e o empoderamento ganham cada vez mais força. “Minorias” que até pouco tempo eram ignoradas encontram, com muita luta, cada vez mais espaço.

A arte é um dos canais que serve de trampolim para este “abrir das portas”. O diálogo que a nova geração da música brasileira estabelece com a sexualidade e as questões de gênero e consequentemente, com a liberdade em ser o que quiser, exemplifica e desafia o que está pré-estabelecido.  Embora o rótulo não lhes caiba, o título “MPBQueer” surge como uma possível descrição sobre eles, que fogem ao senso comum sobre masculino e feminino.

Tendo como base a Teoria Queer – vertente que se popularizou a partir da publicação de “Problemas de Gênero”, da filósofa americana Judith Butler- que, resumidamente, pode ser definida como tudo que escapa às formulações habituais ou de senso comum, essa nova geração se destaca justamente pela pluralidade ao apresentar trabalhos musicais com sonoridades diversas, além de usar o corpo como plataforma para construção de novas imagens que valorizam a diversidade e ampliam o discurso relacionado às questões de gênero, em que normalmente se determina a inserção de um indivíduo na sociedade segundo normas específicas de ser “homem” ou “mulher”.

Falando sobre a música produzida no Brasil, a partir de artistas que se propõem a quebrar os padrões já determinados, é impossível não citar o nome de Ney Matogrosso. O cantor apareceu no início da década de 1970 e deixou uma interrogação na cabeça de muita gente, ao surgir com o peito peludo, dançando de forma sensual e usando uma série de elementos do universo feminino, como: maquiagem, penas e plumas, além da voz  aguda. Ney também abriu o debate para assuntos como, por exemplo, a homossexualidade, em entrevistas, músicas e na identidade visual de seu trabalho (a capa do disco “Feitiço”, de 1978).

Os novos

O pernambucano Johnny Hooker é o artista mais associado à figura de Ney Matogrosso. Suas apresentações ao vivo são sempre teatrais e arrojadas, do figurino a performance, dialogando com a estética difundida por Ney. Hooker se apropria do brega, do rock, do samba, do frevo e da passionalidade em suas canções, ao retratar as dores de amor de uma relação entre dois homens no álbum “Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!”. Jaloo, vem do Pará, mistura tecnobrega ao universo pop, em canções deliciosas como “Insight”. O visual super colorido é um híbrido de referências que misturam peças masculinas e femininas, a cultura indígena e artistas como a cantora alemã Yo Landi Vi$$er.

Dialogando diretamente com o universo tropicalista a banda As Bahias e a Cozinha Mineira flerta com o samba, a bossa nova e o clube da esquina para abordar questões femininas em letras fortes. As vocalistas Assucena Assucena e Raquel Virgínia, transexuais, são uma espécie de Gal e Bethânia contemporâneas, donas de vozes imponentes e personalidades ímpares. Com um som sujo e que bebe do rock dos anos 1980 e da new wave a banda Verónica Decide Morrer, é liderada pela transexual Verónica Valenttino. Surgida em Fortaleza, une o  visual glam e o discurso afiado está em músicas como “Bicha Invejosa” e “Testemunho de Trava”.

No Espírito Santo, a cena musical encontra representatividade nas questões de gênero e sexualidade no audiovisual. O cantor Anderson Bardot interpreta um personagem que não pertence a nenhum gênero pré-definido no videoclipe da canção “Meus Vinte Anos”. Já Silva abre o debate para o amor livre e a sexualidade fluida em “Feliz e Ponto”. No clipe, ele tem uma relação com um homem e uma mulher.  

O funk, o rap e o soul ganham voz com o trio black power Rico Dalasam, MC Linn da Quebrada e Liniker. Dalasam, que apareceu em batalhas de MC em São Paulo, reafirma em suas composições a negritude e  a homossexualidade, tanto no visual fashionista quanto nas músicas, como no rap ostentação “Riquíssima”. Linn usa a música – e o teatro – para criar um diálogo com quem, como ela, decidiu existir como bem quer. “Talento” é um exemplo do discurso reto e das rimas sem meias palavras da MC.

Mas, talvez a figura mais emblemática da nova geração seja Liniker. Criado em família de músicos na periferia paulista e com mais de cinco milhões de acessos apenas no vídeo da música “Zero”, ele não se define como “ele” ou “ela”. Negrx , usa saia, batom e turbante, e empresta sua voz grave para o recém-lançado “Remonta”, álbum em parceria com a banda Caramelows, realizado por meio de financiamento coletivo com quase o dobro da meta estabelecida.

As apresentações lotadas desses artistas confirmam o sucesso e o entendimento do público sobre essas novas propostas artísticas. Mesmo diante de um período de intenso conservadorismo pelo qual passa o país, a escolha involuntária desta geração de artistas reunidos pelo mesmo discurso – já que nunca houve um movimento organizado com o objetivo de abordar essas questões – prova que música de qualidade atrelada a possibilidade de escolher ser o que se quer, ainda gera lucros para a arte. E para a vida.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 22 de outubro de 2016, com o título “Uma Nova Identidade”.