MARCUS VINICIUS: A Presença do Mundo em Mim

Versão online do livro Marcus Vinicius: A Presença do Mundo em Mim, organizado por Erly Vieira Jr, lançado em 2016. Desenvolvi o projeto de comunicação, textos e entrevistas, além da produção editorial da publicação.

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Narrativas do povo negro em primeira pessoa

Olhar em perspectiva, normalmente, nos faz ter uma visão ampla sobre as coisas. A sétima arte pode ser considerada uma ferramenta que facilita esta possibilidade de observar o mundo “de fora”. Para muito além do mero entretenimento, o cinema nos auxilia a entender melhor as diferenças, quebrando preconceitos e tabus, nos fazendo rever valores, além de ser um espaço onde também podemos nos reconhecer.

O cinema educa, conscientiza, sensibiliza, nos faz pensar e sentir, nos faz reavaliar conceitos e reorganizar estruturas. Considerando a variedade de saberes apresentados nos filmes, a 2ª Mostra Cinema e Negritude, que integra a programação do 24º Festival de Cinema de Vitória, vem a público contribuir para visibilizar as narrativas do povo negro.

A mostra, com curadoria dividida entre a gestora e ativista cultural Charlene Bicalho, a assistente social e professora universitária Maria Helena Elpídio e eu, surgiu para atender a demanda crescente do trabalho de produtores e realizadores negros, ampliando assim a visibilidade desses filmes e, ao mesmo tempo, legitimando a produção destes novos cineastas.

A seleção apresenta um recorte transversal sobre as vivências contemporâneas do povo negro como as relações de afeto, questões de gênero, as novas oportunidades sociais, como as cotas étnicas, além de temas que, infelizmente, fazem parte do dia a dia de nós negros, como o racismo e o assassinato de jovens negros.

A mostra

A mostra é composta por seis curtas-metragens: três obras de ficção, um documentário, uma animação e um trabalho experimental. Tia Ciata, de Mariana Campos e Raquel Beatriz, é um documentário sobre o protagonismo feminino negro sob a ótica da personagem título, uma mulher de extrema importância para a formação da cultura brasileira, por meio do samba e das religiões de matriz africana.

Casca do Baobá, de Mariana Luíza, conta a história de uma jovem negra nascida em um quilombo, que entra em uma universidade federal pelo sistema de cotas. Por trocas de mensagens com a mãe, que mora no interior e trabalha como cortadora de cana, elas matam as saudades e refletem sobre a cidade grande, suas ancestralidades e o fim de uma era econômico-social. Ponto comum entre os curtas: mulheres na direção e um olhar delicado e apurado que entrelaça o presente e o passado.

A animação Vitor, de Darcy Alcantara, Felipe Gaze e Wolmyr Alcantara, e a ficção Na Quebrada, de José Augusto Muleta, tratam de impressões. Das primeiras impressões que julgam e padronizam as pessoas em função da raça. Em apenas um minuto, Vitor, deixa claro como o preconceito racial pode ser fruto de estigmas e ignorância. Na Quebrada, acompanha dois jovens pela comunidade, evidenciando que o que parece, na maioria das vezes, não é. O curta foi realizado em parceria com alunos da Casa da Juventude, equipamento localizado no bairro São Pedro, voltado para a formação cultural e artística dos jovens da cidade.

Outro destaque é Contraste de Disfarce, de Judeu Marcum, videoarte que reúne poesia e experimentação ao apresentar o trabalho de Marceu Rosário, poeta capixaba que vem se destacando nas áreas urbanas do país.

Caso J, de José Filipe Costa, trata de forma irônica e, ao mesmo tempo, aguda, de um dos temas mais caros da sociedade brasileira: o assassinato de jovens negros. Sem provas concretas, um grupo de advogados tenta inocentar dois policiais acusados da morte de um possível traficante, em uma metáfora onde o tribunal é um teatro e a morte pode ser uma montagem.

Esses trabalhos são um recorte da pluralidade da comunidade negra no mundo contemporâneo e apresentam, em pouco mais de uma hora, fragmentos da diversidade de narrativas afrodescendentes. Além de reafirmar a transversalidade do tema em toda a programação do festival, a mostra Cinema e Negritude confirma a sétima arte como um espaço para levantar debates e apontar caminhos para uma convivência potente entre as singularidades, onde o respeito seja a entrada franca para uma ótima sessão.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 16 de setembro de 2017.

Uma “Cantriz”

Um jantar trouxe para os holofotes a cantora Zezé Motta. Embora tenha participado, em 1975, do álbum Gerson Conrad e Zezé Motta, a personalidade musical da artista ganhou corpo no álbum intitulado, não por acaso, Zezé Motta. Logo após o lançamento do filme Xica da Silva, todas as vezes em que a artista era questionada sobre novos projetos, ela respondia: “Agora eu vou cantar”.

O desejo de soltar a voz era grande, mas ela não tinha à época nem gravadora, nem repertório e, muito menos, intimidade com o meio musical. Ao ler uma dessas entrevistas, o empresário Guilherme Araújo, um Midas do meio musical, responsável por empresariar a carreira de, entre outros, Caetano Veloso e Gal Costa resolveu organizar um jantar e apresentar a cantora Zezé para essa nova tribo. Entre os convidados estavam grandes nomes da música brasileira de ontem e hoje: Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira, Luiz Melodia.

O resultado foi um álbum de repertório eclético e que apresentou uma cantora de voz grave, carregada de dramaticidade e ironia. Entre os destaques das 11 faixas, uma das primeiras parcerias de Rita Lee e Roberto de Carvalho, Muito Prazer; o samba-funk Crioula, de Moraes Moreira; o choro Rita Baiana, de John Neschling e Geraldo Carneiro; as baladas Dores de Amores, de Luiz Melodia; e Pecado Original, de Caetano Veloso; além de canções que reforçam a identidade negra como Dengue, de Leci Brandão; e Babá Alapalá, de Gilberto Gil.

O álbum é um marco na carreira da artista e reúne arranjos de grandes músicos como Liminha, Perinho Albuquerque, Antônio Adolfo, John Neschling e Tomás Importa. Além de ter criado a identidade musical da artista, o álbum flerta com a música pop, a raiz da canção brasileira e a identidade afro-brasileira. Mas a relação da artista com a música vem desde a infância e do contexto familiar, influenciada principalmente pelo seu pai.

Em casa, sua mãe tinha um ateliê de costura e o rádio ficava constantemente ligado. Ela descobriu o fascínio pela música ouvindo Angela Maria, Nora Ney, Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Jorge Goulart, Ellen de Lima. Seu pai chegava da rua e ela ia correndo cantar as novas músicas que tinha aprendido. E ele se impressionava. “Menina, quantas vezes você ouviu essa música?” , perguntava ele. Normalmente, eram duas ou três vezes. E ele sempre destacava o bom ouvido e a afinação da filha.

Além de professor de violão, o pai de Zezé também tocava na noite carioca. Perto de completar 18 anos, a artista passou a acompanhá-lo em suas apresentações em casas noturnas do Rio de Janeiro. “Quando entrei na juventude, ele me levava para os lugares onde tocava. A primeira vez que subi ao palco para cantar, era em um local onde ele se apresentava. Ele olhou pra mim e disse: ‘Quer dar uma canja’ (risos). Foi meu pai que me descobriu como cantora”.

Entre 1979 e 1985, Zezé gravou três discos: Negritude, Dengo e Frágil Força. Os trabalhos deram continuidade ao estilo apresentado pela artista no seu primeiro trabalho, aproximando o universo pop, a música brasileira e a africanidade. Nesse período ela trouxe para o seu repertório compositores até então inéditos na sua voz, como Milton Nascimento (Bola de Meia, Bola de Gude), João Bosco (Boca de Sapo), Gonzaguinha (Sete Faces), além de visitar os repertórios de grandes mestres como Cartola (Autonomia), Assis Valente (Fez Bobagem) e Johnny Alf (Oxum). Uma curiosidade desta fase é o registro de Cana Caiana – uma das poucas canções assinadas por Maria Bethânia – parceria da baiana com a violonista Rosinha de Valença.

Quarteto Negro, lançado em 1987, apresenta dez faixas e reúne Zezé Motta a três grandes instrumentistas: o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, o baixista e violonista Jorge Degas e o percussionista Djalma Corrêa. O trabalho foi lançado nas comemorações do centenário da Abolição e aproxima o samba do afro-jazz, com destaque para “Semba”, uma recriação do ritmo angolano; “Merengue” que – como sugere o nome – flerta com o ritmo caribenho; e “Quelé Menina”, homenagem a Clementina de Jesus, que une o samba-carioca ao jongo.

O trabalho seguinte, Chave dos Segredos, foi lançado oito anos depois de Quarteto Negro. Das 14 faixas, oito são de autoria de mulheres como Jane Duboc, Suely Correia e Irinéia Maria. O álbum também apresenta Sins, música inédita de Adriana Calcanhotto, e Quero Porque Quero, parceria da cantora com Marina Lima.

Embora não seja uma compositora constante, Zezé Motta já assinou algumas belas canções. Além da parceria com Marina, a artista compôs Cais Escuro, com Paulo César Feital, para o disco Dengo; e Semba, em parceria com Jorge Degas, gravada em Quarteto Negro. Ao lado de Luiz Antônio Carvalho, Zezé escreveu a letra de uma outra canção, em cima de uma melodia de Luiz Bonfá, grande ídolo de seu pai, para a trilha do filme O Prisioneiro do Rio. A compositora Zezé Motta também foi gravada por um dos seus ídolos de infância: Cauby Peixoto. A música se chama Ousadia, uma parceria da artista com Irinéia Maria, e está no álbum Estrelas Solitárias, lançado pelo cantor em 1982.

O álbum seguinte, Divina Saudade, é uma homenagem a uma das maiores cantoras do Brasil: Elizeth Cardoso. Lançado dez anos após a morte da Divina – apelido de Elizeth –, nos anos 2000, surgiu por acaso em um dia que Zezé esbarrou na estante de sua casa com a biografia Elisete Cardoso – Uma Vida, de Sérgio Cabral. Ao ler a biografia, Zezé Motta ficou impressionada com as semelhanças entre as duas, a começar pelas coincidências astrológicas: as duas são cancerianas.

Para chegar às 17 canções que estão no álbum, 300 músicas foram ouvidas. Com produção de Roberto Menescal, o disco possui uma sonoridade sofisticada, limpa e acústica, com uma pegada “MPB de raiz”. O trabalho faz um passeio por parte da história da música brasileira e através do belíssimo e eclético repertório de Elizeth. Estão lá músicas do clássico álbum Canção do Amor Demais (Estrada Branca e Chega de Saudade), disco considerado o marco inaugural da bossa nova ao reunir canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ao lado do violão de João Gilberto; os sambas potentes da dupla Baden Powell e Vinicius de Moraes (Consolação e Tem Dó), além dos lados sambista (O Amor e a Rosa e Tristeza) e romântico (Nossos Momentos e A Noite do Meu Bem) da intérprete.

Após 11 anos sem lançar um novo trabalho musical, uma outra homenagem foi realizada pela cantora, mas desta vez a escolha recaiu sobre dois dos maiores compositores da música brasileira e contemporâneos da artista: Luiz Melodia e Jards Macalé. Melodia é um dos compositores mais constantes na discografia de Zezé. De Macalé, ela tinha gravado apenas uma canção.

A proposta para o álbum surgiu de um convite do DJ Zé Pedro, que estava lançando sua gravadora, a Joia Moderna, que, na época, só gravava mulheres. Zezé lhe disse que estava em turnê com o show O Samba Mandou Me Chamar, ao que ouviu de resposta que a proposta da gravadora era passear por outros gêneros musicais: o jazz, o blues e o rock.

Então, a artista ficou pensando em um projeto que poderia realizar para participar da empreitada do DJ. Indecisa entre gravar um álbum com a obra de Melodia ou Macalé, ligou para Zé Pedro, que respondeu de imediato: “Faça com os dois!”. O resultado foi o álbum Negra Melodia, que reconectou a artista com a irreverência, depois do classudo Divina Saudade.

Ela reapresenta 12 músicas dos grandes compositores, seis de cada autor, sem regravar canções óbvias como Pérola Negra ou Vapor Barato, ou alguma das outras que ela já havia registrado. Com uma base de guitarra, baixo, bateria e incursões de piano, percussão e sopros, ela recorre ao que nunca fez. Grandes canções, até então escondidas, como Começar pelo Recomeço (Luiz Melodia/Torquato Neto), Divina Criatura (Luiz Melodia/Papa Kid), Pano pra Manga (Jards Macalé/Xico Chaves) e The Archaic Lonely Star Blues (Jards Macalé/Duda) ganham versões robustas e ousadas, como a deslumbrante Soluções, de Jards Macalé, em que a cantriz brilha.

A definição definitiva da cantora Zezé Motta foi dada pelo DJ Zé Pedro no material de divulgação de Negra Melodia: “Zezé Motta é a rainha negra do Brasil. A mulher da pele preta que enfrentou a ditadura desse país livre e nua. Zezé é uma atriz de dar orgulho. Seu exercício de interpretar a levou para os melhores palcos, aos melhores filmes criados por aqui, aos cantos escondidos dessa terra através da televisão. Mas tem uma coisa que Zezé Motta faz ainda melhor: cantar”.

*Texto originalmente publicado em “Caderno da Homenageada: Zezé Motta”, publicação biográfica em homenagem a atriz e cantora durante a 24ª Edição do Festival de Cinema de Vitória, em setembro de 2017.

Um Copo Vazio Cheio de Mar

LOGOTIPO2_COPODEMARDe acordo com o dicionário, a palavra tradição é um conjunto de fatos, lendas, ritos, usos e crenças, transmitidos de geração para geração, com o objetivo de manter vivas ideias e valores culturais de uma comunidade passando a fazer parte da cultura local.

Nessa perspectiva, a Ilha das Caieiras, símbolo da história capixaba, pode ser considerada a síntese de parte da cultura do Espírito Santo. Por concentrar de forma singular pratos icônicos da gastronomia regional e as memórias de quem ali vive, a região poderia ser um novo sinônimo de tradição e a tradição pode ser um mote para o contemporâneo.

O Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel Passos Lyrio, espaço constantemente voltado para celebrar e fundamentar a história da região, vai ser o elo para a tradição e a arte contemporânea tendo como fio condutor outro ponto fundamental para a história das Caieiras: o mar.

A partir deste sábado, 05 de agosto, a exposição Copo de Mar coloca em cena todos esses elementos ao trazer o mar, o alimento, a religião e seus simbolismos através do olhar e das obras dos artistas Julio Schmidt, Maruzza Valdetaro e Rosindo Torres.

No recorte proposto pela artista e curadora da exposição, Franquilandia Raft, optou-se por obras que permitissem trabalhar a imaginação e a fantasia do universo lúdico, além da harmonia estética entre os trabalhos que fazem parte do Acervo da Casa Porto das Artes Plásticas, oriundos dos Salões do Mar dos anos de 1999 e 2001.

As telas “Atum Sólido ao Natural em Água e Sal”, “Sardinhas em Molho de Tomate” e “Sardinhas em Óleo Comestível” surgem da apropriação da estética publicitária, como Andy Warhol fazia, e criam a possibilidade de reinventar aquele objeto e propor um novo olhar ao público. Com um trabalho que dialoga diretamente com a pop art, Julio Schmidt ressignificou as tradicionais latas de sardinhas ao transformá-las em obra de arte.

Além do prêmio de primeiro lugar na 3ª edição do Salão do Mar, em 2001, duas das três obras produzidas fizeram parte da exposição Still Life/ Natureza Morta, mostra coletiva que reuniu grandes nomes da arte britânica e brasileira, como Leda Catunda e Luiz Zerbini, e que esteve em cartaz na Galeria do Sesi, em São Paulo, e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, entre 2004 e 2005.

Maruzza Valdetaro usa o lúdico para vestir as sereias. Os seres mitológicos ganham vestimentas de acordo com seu posicionamento no mundo. Dessa forma, a sereia do oceano Ártico ganha uma calça branca; a do oceano Antártico, uma peça rosa; e a de calça preta escamada de dourado, é do Mar das Arábias. “Roupa de Sereia” ficou com o 3º Prêmio e Júri Popular do 3º Salão Capixaba do Mar, ao vestir e propor um novo olhar sobre as rainhas do mar.

O sincretismo religioso relacionado a figuras voltadas para o mar foi a inspiração de Rosindo Torres para a criação de “Cuidado com os Parcéis”. A instalação usa imagens de símbolos religiosos, que se parecem com as imagens vendidas nos mercados populares, para reconstruir a narrativa entre o erudito e o popular, criando um diálogo entre ícones religiosos e suas imagens padronizadas.

“Copo de Mar” é uma oportunidade ímpar de diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, potencializando uma linguagem que valoriza a diversidade sem, contudo, desconsiderar o singular. Além disso, sintetiza a ideia de que, como ocupantes desta ilha, o mar está impregnado em nós. Mar que é, ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida perspectivando o horizonte. Cada um dos trabalhos desses artistas ingere essa porção de mar, tão rica nas Caierias, que nos permite saborear suas delícias gastronômicas e brindar nossa cultura.

*Texto escrito em parceria com a artista plástica Fernanda Bellumat e originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 05 de agosto de 2017.