Todas as Cores do Arco-Íris na Telona

CLOSE CERTO. A gíria usada pelo público LGBTQI+ que denomina algo assertivo e muito bem feito define bem a produção audiovisual capixaba realizada nos últimos dez anos com foco na diversidade sexual.

Este recorte temporal, segundo o cineasta, pesquisador e professor do departamento de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Erly Vieira Jr, se deve ao ano de 2008, que marca um novo paradigma para a produção de filmes LGBTQI+ no cenário capixaba ao lançar a primeira experiência ficcional protagonizada por personagens LGBT’s.

Despertai, de Edson Poloni e Lorenzzo de Angeli, acompanha a vida de um grupo de amigos gays, lésbicas e trans, abordando o cotidiano de seus personagens e de seu público e tratando de, entre outros assuntos, relacionamentos amorosos e familiares, homofobia, a não-normatividade do masculino e do feminino, a aceitação e rejeição familiar, além de um timing narrativo que dialoga diretamente com a linguagem do cinema e dos seriados televisivos voltados para o público LGBT produzidos na atualidade.

“Pela primeira vez vemos esses temas serem encarados diretamente em uma produção ficcional local, e a importância disso é inegável – inclusive em termos daquilo que a teórica Mariana Baltar chama de uma “pedagogia sócio-cultural”, na qual a imagem fílmica permite ao espectador, através de partilhas e experiências mostradas na tela, aprender sobre como vivem os indivíduos não-heteronormativos” explica Erly.

Nova Geração

Esses novos realizadores, e suas produções, colocam em primeiro plano as experiências e o cotidiano de personagens LGBTs. Muitos deles tratam o assunto com total propriedade por pertencerem a este lugar de fala. Seus filmes, de forma ficcional ou documental, abrem um olhar para as vivências e humanizam as histórias deste público.

O realizador Izah Candido é diretor da websérie documental Corpo Flor (2018), que trata da transgeneridade negra para além das fronteiras do masculino e feminino, e um dos protagonistas de Transvivo (2017), documentário de Tati W. Franklin, que trata da transexualidade a partir de registros do cotidiano sobre os processos de transição de gênero, as experiências e histórias contadas por meio do audiovisual. Segundo ele, essas produções são uma das formas de atravessar o público e ampliar o discurso para o debate.

“O audiovisual é uma ferramenta que tem alcançado cada vez mais espaços por intermédio da internet e das redes sociais. É algo que circula muito e chega a vários lugares. A partir disso, os encontros são propostos e com eles os atravessamentos. Acho que é difícil as pessoas assistirem qualquer coisa sem minimamente parar para pensar sobre o assunto depois”, afirma.

Apesar de uma produção crescente de obras voltadas e sobre o público LGBT+, Izah acredita que é preciso ampliar discurso para além do tema e realizar inclusão também no mercado de trabalho: “há muita coisa sendo feita para LGBT, mas sem LGBT na produção. Precisamos pensar em lugares de fala, em protagonismo na frente e atrás das câmeras”.

Izah também defende que, cada vez mais, existam políticas públicas, como cotas e editais específicos para realizadores LGBTQI+, que estimulem e fortaleçam o discurso da diversidade: “Se só uma parcela da população, que são homens brancos cis heteronormatividade, tem feito filmes, está na hora de mudar e então, sim, sou a favor de minimamente colocarmos em pé de equidade a possibilidade de outros olhares produzirem cultura”.

Para o co-diretor e roteirista da websérie Corpo Flor, ao lado de Izah, Wan Viana – que também dirigiu Montação (2016), documentário sobre o processo de transformação de drag queens – reconhecer essas existências LGBTs, por meio da sua produção audiovisual, é uma das formas de fortalecimento para se pensar políticas que tratam da valorização e do respeito à diferença e a diversidade: “Oferecer espaço para que as pessoas possam dividir suas experiências, para que eu possa aprender mais sobre o outro e possa também levar esse conhecimento para outras pessoas”.

Mesmo sabendo das dificuldades do mercado audiovisual, Wan Viana, diz perceber uma forte presença de LGBTs nessa área: “sempre existiram, mas agora com a sensação de maior aceitação que está acontecendo no mercado, essas pessoas podem falar de si próprias de maneira mais direta. São LGBTs contando suas próprias histórias, e daí trabalhos incríveis acontecem”.

“Acredito que o incentivo em políticas públicas para a produção cultural de conteúdo LGBTQIA+ demonstre interesse do estado democrático que tais manifestações culturais continuem existindo e se fortaleçam. E daí já não tenho certeza se essa é a vontade da maior parcela dos nossos governantes” complementa Viana.

Diretor do documentário experimental XX Tape (2016), selecionado para o 25º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em São Paulo, e da ficção Câmera Calibre (2017), Anderson Bardot considera que a produção audiovisual é uma ferramenta de transformação humana e social por meio desses novas olhares. “Enquanto bicha, pensadora, entendo que, quando tomo a história pra mim, eu abro o meu campo de visão para além do meu ego e isso me faz entender a importância de produzir saberes através do cinema. O audiovisual pode servir de diagnóstico e até mesmo de receita para as dores sociais” acredita ele, que se prepara para dirigir a adaptação para a tela grande do espetáculo de dança Inabitáveis, da Cia In Pares.

Para Bardot, existir enquanto cineasta que se propõe a debater temas que parte da sociedade não quer discutir é viver em constante enfrentamento: “Sempre estivemos em todos os lugares, em toda a história da humanidade. Mas nunca estivemos tão despretensiosos e fluídos como agora. E isso é um resultado de lutas. Não há momento melhor para levantarmos bandeiras e dizermos com orgulhoso o que nós somos, o que sofremos, o que amamos, do que agora. Mostrar a beleza de sermos desprendidos e diferentes. E eu me sinto honrado em fazê-lo”.

A diversidade sexual no cinema capixaba

A produção audiovisual com temática LGBTQI+ está presente na história do cinema nacional desde suas décadas iniciais. De acordo com o livro O Cinema Que Ousa Dizer Seu Nome, do jornalista e cineasta Lufe Steffen, o primeiro curta gay brasileiro é Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora, lançado em 1968 e dirigido pelo manauara Djalma Limongi Batista.

Nestes 50 anos, após o lançamento do filme de Limongi, diversos trabalhos como A Rainha Diaba (1974), de Antônio Carlos da Fontoura, que coloca uma personagem travesti como chefe do tráfico; e Vera (1986), que aborda os conflitos relacionados a identidade de gênero, trataram do tema, mesmo que de forma mais espaçada.

Foi na década de 90 e, principalmente, depois da fase da retomada do cinema nacional, que uma série de realizadores assumiram seu lugar de fala e uma pluralidade de produções surgem com a proposta de debater os temas ligados à diversidade sexual.

Para o cineasta Erly Vieira Jr., desde a década de 70, já é possível perceber um olhar queer – que resumidamente pode ser definido como tudo que escapa às formulações habituais ou de senso comum – nas produções realizadas no Espírito Santo, por cineastas como Amylton de Almeida. “Podemos observar ecos de um olhar queerizante sobre a realidade social em alguns de seus documentários, como por exemplo, o senso de humor que denuncia certas convenções do poder masculino exercido sobre as prostitutas em São Sebastião dos Boêmios (1976)”.

Outros ecos queer podem ser percebidos em produções da década de 80, nos trabalhos de coletivos como o Balão Mágico e Aedes Aegyptis. Mas talvez a primeira obra audiovisual capixaba assumidamente queer seja Comida, Sexo e Morte (1992), do coletivo Éden Dionisíaco do Brasil, dirigido por Lobo Pasolini. “Nele, não somente encontra-se espaço para o exercício de sexualidades dissidentes, que até então são invisíveis no audiovisual local, como também há uma forte filiação à estética clubber tão marcante nas culturas LGBT dos anos 90”, explica Erly.

Ao longo da década de 1990 e início dos anos 2000, essa atitude e estética queer influenciou o trabalho de vários videoartistas e cineastas locais que, não necessariamente, tratavam de questões voltadas para o universo da diversidade sexual. São destaques, C33 Oscar Wilde (1999) e Jorge: o Guerreiro (2000), de Jean R.; A Festa do Bolinha (2001), de Rodrigo Linhales e Tati Rabelo; Manoela (2001), de Fabrício Coradello e Saudosa (2005), de Fabrício Coradello e Erly Vieira Jr.

Mas é depois de 2008, com Despertai, que o cinema LGBTQI+ ganha força nas produções locais apresentando uma pluralidade de temas dentro do aspecto da realidade. Neste mesmo caminho surgem Angorá (2011), de Emerson Evêncio; Você suportaria? (2013), de Sandy Vasconcelos, primeira cineasta trans capixaba. Coisa de Menino (2014), de Bipe Couto e Dayana Cordeiro e Dia de Pais (2016), de Thiago Oliveira, incluem o universo infantil dentro da temática LGBTQ+.

Nessa fase surge uma série de documentários como Homens (2008), de Lucia Caus e do paraibano Bertrand Lyra, que discute outras formas de masculinidade e feminilidade no nordeste brasileiro. Rainhas da Noite (2010) e O Aniversário de Chica Chiclete, ambos de Diego Herzog (2012), concentram-se no universo performático das drag queens e transformistas. Do Outro Lado do Arco-Íris, de Leonardo Vais e Mayara Mello (2012), resgata memórias de preconceito contra homossexuais em diversos ambientes. Já Velcro (2017), de Natália Gotardo, dá voz a casais de mulheres lésbicas, enquanto Nós (2016), de Gustavo Guilherme e Lorhana Victor, centra-se nos jovens negros.

O universo trans aparece em diversas produções. A transexualidade feminina é abordada em filmes como Eu, Mulher (2015), de Adryelisson Maduro, e Toda Noite Estarei Lá (2017), de Thiago Moulin, além de Transem Ação (2015), do ES Cineclube Diversidade. Já a transexualidade masculina é tema de Transverso (2016), de Danyllo Rocha e Nina Rocha, e do já citado Transvivo (2017), de Tati W Franklin.

Outros filmes que se destacam são Romance a la Nelson (2012), de Mariana Preti; Planície (2015), de Gabriel Perrone, o curta experimental de Fabrício Fernandez, Transcorpos (2015); Embaraçadas (2014), de Paulo Sena; e do diretor Rodrigo de Oliveira Ano Passado Eu Morri (2017) e Teobaldo Morto, Romeu Exilado (2015).

Segundo Erly, um dos filmes que melhor sintetiza o universo queer é Cartas Para Eros (2016), de Herbert Fieni, documentário ensaístico em primeira pessoa parte de imagens de arquivos e de memórias pessoais do cineasta sobre a cena LGBT capixaba dos anos 90.

“Ao promover, através da dimensão sonora e da pós-produção da imagem, um outro tipo de corporeidade a ser partilhada pelo espectador, Cartas para Eros propõe sua própria queerização do sensório, ativando memórias diversas desse ‘estar-no-mundo’ queer que por décadas tem atravessado nossas vidas. A meu ver, cabe às produções audiovisuais queer captarem e reinventarem constantemente esse imaginário”, finaliza Erly.

Em parceria com Lamartine Neto, Fieni também dirigiu Meninos do Arco-Íris (2013), curta faz da lenda do arco-íris uma metáfora para abordar as fronteiras entre os gêneros masculino e feminino.

*Texto originalmente publicado em Milímetros – Revista do Audiovisual Capixaba, Edição nº 08/ Ano 2018.

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Das semanas

Um documentário: Waiting For B., Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel (trailer)
Uma entrevista: Amara Moira, Revista TPM (leia)
Um espetáculo: Hamlet, Armazém Companhia de Teatro (teaser)
Um filme: As Duas Irenes, Fabio Meira (trailer)
Um outro filme: Corpo Elétrico, Marcelo Caetano (trailer)
Um filme ruim: mãe!, Darren Aronofsky (trailer)
Uma matéria: Negro Drama, Revista Trip (leia)
Um vídeo: Casa TPM, Djamila Ribeiro (veja)
Um outro vídeo: Human Rights Watch, Zanele Muholi (veja)

Das semanas

Um curta: Caso J, José Filipe Costa, (saiba mais)
Um documentário: Tia Ciata, Mariana Campos e Raquel Beatriz, (trailer)
Um filme: Como Nossos Pais, Laís Bodansky (trailer)
Um outro filme: Bingo: O Rei das Manhãs, Daniel Rezende (trailer)
Uma peça de teatro: A Casa dos Budas Ditosos, Domingos de Oliveira (teaser e entrevista)

Narrativas do povo negro em primeira pessoa

Olhar em perspectiva, normalmente, nos faz ter uma visão ampla sobre as coisas. A sétima arte pode ser considerada uma ferramenta que facilita esta possibilidade de observar o mundo “de fora”. Para muito além do mero entretenimento, o cinema nos auxilia a entender melhor as diferenças, quebrando preconceitos e tabus, nos fazendo rever valores, além de ser um espaço onde também podemos nos reconhecer.

O cinema educa, conscientiza, sensibiliza, nos faz pensar e sentir, nos faz reavaliar conceitos e reorganizar estruturas. Considerando a variedade de saberes apresentados nos filmes, a 2ª Mostra Cinema e Negritude, que integra a programação do 24º Festival de Cinema de Vitória, vem a público contribuir para visibilizar as narrativas do povo negro.

A mostra, com curadoria dividida entre a gestora e ativista cultural Charlene Bicalho, a assistente social e professora universitária Maria Helena Elpídio e eu, surgiu para atender a demanda crescente do trabalho de produtores e realizadores negros, ampliando assim a visibilidade desses filmes e, ao mesmo tempo, legitimando a produção destes novos cineastas.

A seleção apresenta um recorte transversal sobre as vivências contemporâneas do povo negro como as relações de afeto, questões de gênero, as novas oportunidades sociais, como as cotas étnicas, além de temas que, infelizmente, fazem parte do dia a dia de nós negros, como o racismo e o assassinato de jovens negros.

A mostra

A mostra é composta por seis curtas-metragens: três obras de ficção, um documentário, uma animação e um trabalho experimental. Tia Ciata, de Mariana Campos e Raquel Beatriz, é um documentário sobre o protagonismo feminino negro sob a ótica da personagem título, uma mulher de extrema importância para a formação da cultura brasileira, por meio do samba e das religiões de matriz africana.

Casca do Baobá, de Mariana Luíza, conta a história de uma jovem negra nascida em um quilombo, que entra em uma universidade federal pelo sistema de cotas. Por trocas de mensagens com a mãe, que mora no interior e trabalha como cortadora de cana, elas matam as saudades e refletem sobre a cidade grande, suas ancestralidades e o fim de uma era econômico-social. Ponto comum entre os curtas: mulheres na direção e um olhar delicado e apurado que entrelaça o presente e o passado.

A animação Vitor, de Darcy Alcantara, Felipe Gaze e Wolmyr Alcantara, e a ficção Na Quebrada, de José Augusto Muleta, tratam de impressões. Das primeiras impressões que julgam e padronizam as pessoas em função da raça. Em apenas um minuto, Vitor, deixa claro como o preconceito racial pode ser fruto de estigmas e ignorância. Na Quebrada, acompanha dois jovens pela comunidade, evidenciando que o que parece, na maioria das vezes, não é. O curta foi realizado em parceria com alunos da Casa da Juventude, equipamento localizado no bairro São Pedro, voltado para a formação cultural e artística dos jovens da cidade.

Outro destaque é Contraste de Disfarce, de Judeu Marcum, videoarte que reúne poesia e experimentação ao apresentar o trabalho de Marceu Rosário, poeta capixaba que vem se destacando nas áreas urbanas do país.

Caso J, de José Filipe Costa, trata de forma irônica e, ao mesmo tempo, aguda, de um dos temas mais caros da sociedade brasileira: o assassinato de jovens negros. Sem provas concretas, um grupo de advogados tenta inocentar dois policiais acusados da morte de um possível traficante, em uma metáfora onde o tribunal é um teatro e a morte pode ser uma montagem.

Esses trabalhos são um recorte da pluralidade da comunidade negra no mundo contemporâneo e apresentam, em pouco mais de uma hora, fragmentos da diversidade de narrativas afrodescendentes. Além de reafirmar a transversalidade do tema em toda a programação do festival, a mostra Cinema e Negritude confirma a sétima arte como um espaço para levantar debates e apontar caminhos para uma convivência potente entre as singularidades, onde o respeito seja a entrada franca para uma ótima sessão.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 16 de setembro de 2017.

Uma “Cantriz”

Um jantar trouxe para os holofotes a cantora Zezé Motta. Embora tenha participado, em 1975, do álbum Gerson Conrad e Zezé Motta, a personalidade musical da artista ganhou corpo no álbum intitulado, não por acaso, Zezé Motta. Logo após o lançamento do filme Xica da Silva, todas as vezes em que a artista era questionada sobre novos projetos, ela respondia: “Agora eu vou cantar”.

O desejo de soltar a voz era grande, mas ela não tinha à época nem gravadora, nem repertório e, muito menos, intimidade com o meio musical. Ao ler uma dessas entrevistas, o empresário Guilherme Araújo, um Midas do meio musical, responsável por empresariar a carreira de, entre outros, Caetano Veloso e Gal Costa resolveu organizar um jantar e apresentar a cantora Zezé para essa nova tribo. Entre os convidados estavam grandes nomes da música brasileira de ontem e hoje: Caetano Veloso, Rita Lee, Moraes Moreira, Luiz Melodia.

O resultado foi um álbum de repertório eclético e que apresentou uma cantora de voz grave, carregada de dramaticidade e ironia. Entre os destaques das 11 faixas, uma das primeiras parcerias de Rita Lee e Roberto de Carvalho, Muito Prazer; o samba-funk Crioula, de Moraes Moreira; o choro Rita Baiana, de John Neschling e Geraldo Carneiro; as baladas Dores de Amores, de Luiz Melodia; e Pecado Original, de Caetano Veloso; além de canções que reforçam a identidade negra como Dengue, de Leci Brandão; e Babá Alapalá, de Gilberto Gil.

O álbum é um marco na carreira da artista e reúne arranjos de grandes músicos como Liminha, Perinho Albuquerque, Antônio Adolfo, John Neschling e Tomás Importa. Além de ter criado a identidade musical da artista, o álbum flerta com a música pop, a raiz da canção brasileira e a identidade afro-brasileira. Mas a relação da artista com a música vem desde a infância e do contexto familiar, influenciada principalmente pelo seu pai.

Em casa, sua mãe tinha um ateliê de costura e o rádio ficava constantemente ligado. Ela descobriu o fascínio pela música ouvindo Angela Maria, Nora Ney, Cauby Peixoto, Marlene, Emilinha, Jorge Goulart, Ellen de Lima. Seu pai chegava da rua e ela ia correndo cantar as novas músicas que tinha aprendido. E ele se impressionava. “Menina, quantas vezes você ouviu essa música?” , perguntava ele. Normalmente, eram duas ou três vezes. E ele sempre destacava o bom ouvido e a afinação da filha.

Além de professor de violão, o pai de Zezé também tocava na noite carioca. Perto de completar 18 anos, a artista passou a acompanhá-lo em suas apresentações em casas noturnas do Rio de Janeiro. “Quando entrei na juventude, ele me levava para os lugares onde tocava. A primeira vez que subi ao palco para cantar, era em um local onde ele se apresentava. Ele olhou pra mim e disse: ‘Quer dar uma canja’ (risos). Foi meu pai que me descobriu como cantora”.

Entre 1979 e 1985, Zezé gravou três discos: Negritude, Dengo e Frágil Força. Os trabalhos deram continuidade ao estilo apresentado pela artista no seu primeiro trabalho, aproximando o universo pop, a música brasileira e a africanidade. Nesse período ela trouxe para o seu repertório compositores até então inéditos na sua voz, como Milton Nascimento (Bola de Meia, Bola de Gude), João Bosco (Boca de Sapo), Gonzaguinha (Sete Faces), além de visitar os repertórios de grandes mestres como Cartola (Autonomia), Assis Valente (Fez Bobagem) e Johnny Alf (Oxum). Uma curiosidade desta fase é o registro de Cana Caiana – uma das poucas canções assinadas por Maria Bethânia – parceria da baiana com a violonista Rosinha de Valença.

Quarteto Negro, lançado em 1987, apresenta dez faixas e reúne Zezé Motta a três grandes instrumentistas: o saxofonista e clarinetista Paulo Moura, o baixista e violonista Jorge Degas e o percussionista Djalma Corrêa. O trabalho foi lançado nas comemorações do centenário da Abolição e aproxima o samba do afro-jazz, com destaque para “Semba”, uma recriação do ritmo angolano; “Merengue” que – como sugere o nome – flerta com o ritmo caribenho; e “Quelé Menina”, homenagem a Clementina de Jesus, que une o samba-carioca ao jongo.

O trabalho seguinte, Chave dos Segredos, foi lançado oito anos depois de Quarteto Negro. Das 14 faixas, oito são de autoria de mulheres como Jane Duboc, Suely Correia e Irinéia Maria. O álbum também apresenta Sins, música inédita de Adriana Calcanhotto, e Quero Porque Quero, parceria da cantora com Marina Lima.

Embora não seja uma compositora constante, Zezé Motta já assinou algumas belas canções. Além da parceria com Marina, a artista compôs Cais Escuro, com Paulo César Feital, para o disco Dengo; e Semba, em parceria com Jorge Degas, gravada em Quarteto Negro. Ao lado de Luiz Antônio Carvalho, Zezé escreveu a letra de uma outra canção, em cima de uma melodia de Luiz Bonfá, grande ídolo de seu pai, para a trilha do filme O Prisioneiro do Rio. A compositora Zezé Motta também foi gravada por um dos seus ídolos de infância: Cauby Peixoto. A música se chama Ousadia, uma parceria da artista com Irinéia Maria, e está no álbum Estrelas Solitárias, lançado pelo cantor em 1982.

O álbum seguinte, Divina Saudade, é uma homenagem a uma das maiores cantoras do Brasil: Elizeth Cardoso. Lançado dez anos após a morte da Divina – apelido de Elizeth –, nos anos 2000, surgiu por acaso em um dia que Zezé esbarrou na estante de sua casa com a biografia Elisete Cardoso – Uma Vida, de Sérgio Cabral. Ao ler a biografia, Zezé Motta ficou impressionada com as semelhanças entre as duas, a começar pelas coincidências astrológicas: as duas são cancerianas.

Para chegar às 17 canções que estão no álbum, 300 músicas foram ouvidas. Com produção de Roberto Menescal, o disco possui uma sonoridade sofisticada, limpa e acústica, com uma pegada “MPB de raiz”. O trabalho faz um passeio por parte da história da música brasileira e através do belíssimo e eclético repertório de Elizeth. Estão lá músicas do clássico álbum Canção do Amor Demais (Estrada Branca e Chega de Saudade), disco considerado o marco inaugural da bossa nova ao reunir canções de Tom Jobim e Vinicius de Moraes ao lado do violão de João Gilberto; os sambas potentes da dupla Baden Powell e Vinicius de Moraes (Consolação e Tem Dó), além dos lados sambista (O Amor e a Rosa e Tristeza) e romântico (Nossos Momentos e A Noite do Meu Bem) da intérprete.

Após 11 anos sem lançar um novo trabalho musical, uma outra homenagem foi realizada pela cantora, mas desta vez a escolha recaiu sobre dois dos maiores compositores da música brasileira e contemporâneos da artista: Luiz Melodia e Jards Macalé. Melodia é um dos compositores mais constantes na discografia de Zezé. De Macalé, ela tinha gravado apenas uma canção.

A proposta para o álbum surgiu de um convite do DJ Zé Pedro, que estava lançando sua gravadora, a Joia Moderna, que, na época, só gravava mulheres. Zezé lhe disse que estava em turnê com o show O Samba Mandou Me Chamar, ao que ouviu de resposta que a proposta da gravadora era passear por outros gêneros musicais: o jazz, o blues e o rock.

Então, a artista ficou pensando em um projeto que poderia realizar para participar da empreitada do DJ. Indecisa entre gravar um álbum com a obra de Melodia ou Macalé, ligou para Zé Pedro, que respondeu de imediato: “Faça com os dois!”. O resultado foi o álbum Negra Melodia, que reconectou a artista com a irreverência, depois do classudo Divina Saudade.

Ela reapresenta 12 músicas dos grandes compositores, seis de cada autor, sem regravar canções óbvias como Pérola Negra ou Vapor Barato, ou alguma das outras que ela já havia registrado. Com uma base de guitarra, baixo, bateria e incursões de piano, percussão e sopros, ela recorre ao que nunca fez. Grandes canções, até então escondidas, como Começar pelo Recomeço (Luiz Melodia/Torquato Neto), Divina Criatura (Luiz Melodia/Papa Kid), Pano pra Manga (Jards Macalé/Xico Chaves) e The Archaic Lonely Star Blues (Jards Macalé/Duda) ganham versões robustas e ousadas, como a deslumbrante Soluções, de Jards Macalé, em que a cantriz brilha.

A definição definitiva da cantora Zezé Motta foi dada pelo DJ Zé Pedro no material de divulgação de Negra Melodia: “Zezé Motta é a rainha negra do Brasil. A mulher da pele preta que enfrentou a ditadura desse país livre e nua. Zezé é uma atriz de dar orgulho. Seu exercício de interpretar a levou para os melhores palcos, aos melhores filmes criados por aqui, aos cantos escondidos dessa terra através da televisão. Mas tem uma coisa que Zezé Motta faz ainda melhor: cantar”.

*Texto originalmente publicado em “Caderno da Homenageada: Zezé Motta”, publicação biográfica em homenagem a atriz e cantora durante a 24ª Edição do Festival de Cinema de Vitória, em setembro de 2017.