Da semana

Um clipe-música: Nothing Breaks Like a Heart, Mark Ronson feat. Miley Cyrus (ouça-veja)
Uma música: Noite Vazia, Thiago Pethit (ouça)
Uma outra música: Dia Lindo, Terno Rei (ouça)
Uma entrevista: Gabriel Hilair para Nexo (leia)
Uma matéria: Indígenas e Gays: jovens contam como é ser LGBT dentro e fora das aldeias, G1 (leia)

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Das Semanas

Um filme: Infiltrado na Klan, Spike Lee, (trailer)
Um outro filme: As Viúvas, Steve McQueen (trailer)
Mais um filme: As Boas Maneiras, Juliana Rojas e Marco Dutra (trailer)
Ainda um filme: Tinta Bruta, Filipe Matzembacher e Márcio Reolon (trailer)
Um musical: Elza, Duda Maia (saiba mais)
Uma peça de teatro: A Ponte, Adriano Guimarães  (saiba mais)
Uma exposição: Raiz, Ai Weiwei, Oca Ibirapuera (saiba mais)
Uma outra exposição: Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana [1960-1985], Pinacoteca (saiba mais)
Mais uma exposição: Ocupação Ilê Aiyê, Itaú Cultural (saiba mais)

O Jeito de Fabriccio

Representatividade. substantivo feminino. 1. qualidade de representativo 2. qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome.

Diante do atual momento conservador pelo qual passa o Brasil, e também o mundo, a aplicação do conceito de representatividade no cotidiano se faz cada vez mais urgente. Com seus dreads locks e sorriso escancarado, acompanhado do seu violão e teclado, o cantor Fabricio é um ótimo representante tanto do artista consciente da problemática étnico-racial brasileira e da importância do protagonismo negro na cena musical, quanto da boa música produzida no Espírito Santo na atualidade.

Prova disto é a coletânea digital “Novíssima Música Brasileira”. Recentemente lançado, esse disco virtual traz 18 faixas – cinco delas inéditas, três produzidas para o disco – de bandas e artistas de várias partes do Brasil como Salvador, Recife, Natal, Aracaju, além de Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Do Espírito Santo, fazem parte desse projeto a banda Muddy Brothers e Fabricio, com “Feito Tamborim”, música originalmente produzida para o EP “Desajeito”, de 2013, trabalho que ele considera ser “um marco do início dessa vontade de compor canções, de cantar e de expressar de forma mais efetiva minhas influências da música negra norte-americana e da brasileira”.

O cantor acredita que as novas formas de produzir e consumir música, com a internet e os serviços de streaming, por exemplo, democratizaram o caminho para se fazer música. “Percebo que a tecnologia mudou muito as coisas e aproximou quem tem menos acesso da possibilidade de produzir artisticamente. Quando um artista que está começando, como eu, tem a oportunidade de dividir o palco, páginas de jornais/ sites e faixas em coletâneas com artistas que já estão rodando o Brasil e o mundo é maravilhoso e altamente motivador”.

Espírito Musical

O primeiro contato com a música veio do período em que frequentou a igreja na companhia da mãe, mas ele logo percebeu que o caminho para a música não seria naquele espaço. “O musical nesse meio era totalmente frio e condicionado a vários fatores que não tinham nada a ver com música e nem com espiritualidade. Considero a minha vivência  com as bandas durante a adolescência – Bob Marley, no céu, e Black Sabbath, na terra – como minha porta de entrada pra tudo que rolou e há de rolar com música”.

Entre o reggae e o rock, Fabrício descobriu o funk e o soul americano e a música brasileira de várias gerações. “No som que faço hoje com meu trabalho solo percebo e enfatizo a influência dos clássicos da Motown, Stax, Atlantis e toda negrada americana do funk e soul. O contato com o rap brasileiro foi algo fundamental pra mim como ouvinte. Racionais MC’S, Rzo e todos esses clássicos nacionais, através dos quais eu fui apresentado ao Jorge Ben, James Brown, George Clinton. Foi esse som que me deu a possibilidade de fazer algo musical próximo da minha realidade. O rap nacional pra mim, e pra muitos, foi e é definitivo e acima de tudo didático”.

A cena hip hop é tão forte para o músico que, entre os parceiros de geração, ele destaca vários nomes como WC Beats, Mano Feijó e Preta Roots. “A cena do rap capixaba, de uma forma geral, é um dos núcleos mais produtivos e significativos desde sempre na música autoral e na produção independente por aqui no Estado”, afirma o artista que também destaca, fora do rap, os nomes de  Claudson Sales,Thiago Perovano e Thais Uchôa com quem já teve o “prazer de tocar, fazer parcerias e criar junto”.

Ainda sobre representatividade

Para Fabrício, mesmo com a contribuição histórica de artistas negros para a música mundial, os espaços e, principalmente, a visibilidade ainda são pequenos. “Os negros sempre estiveram na vanguarda musical em 90% da música feita no mundo. Mas nem sempre são tão bem vindos sob os holofotes, principalmente quando se afirmam como tal. Por mais que tenhamos negros em todas os nichos musicais sinto que há uma certa invisibilidade tanto do artista negro em si quanto do papel do negro na música. E no Brasil isso é muito forte”.

Mas Fabrício também acredita que as mudanças no consumo da cultura de massa, com a popularização e democratização da rede, estão mudando a visibilidade do artista negro. “Os tempos mudaram, a internet, o modo que se consome música e entretenimento também, assim como o lugar que a música negra conquistou, ficou impossível pra grande mídia ignorar. Isso acontece desde James Brown e aconteceu quando a indústria absorveu o rap. É lindo, e ainda mais no caso da Beyoncé, uma mulher, negra, no topo da musica pop americana, falando para e sobre negros. É maravilhoso, histórico e sintomático”.

Para ele, essa representatividade se faz necessária para que as questões de preconceito diminuam reforçando a aceitação. “Hoje temos em posição de destaque na cena independente nacional negros e negras como Liniker e Tássia Reis.  E eu vejo uma galera cantando as letras nos shows, se identificando, se sentindo representado. Pra um negro ou negra jovem ter artistas com os quais eles se identificam é maravilhoso, porque, geralmente, tudo à nossa volta nos leva a crer desde criança que não somos bonitos, que não somos capazes e sempre nos relacionam com coisas tão negativas. Ter figuras assim é tipo ‘sim, eu posso!’. Isso sempre gera frutos, na música e na vida, eu sou fruto desse tipo de relação”.

*Texto originalmente publicado na revista Bless Magazine, Edição nº 05/ Ano 2015.

Um Copo Vazio Cheio de Mar

LOGOTIPO2_COPODEMARDe acordo com o dicionário, a palavra tradição é um conjunto de fatos, lendas, ritos, usos e crenças, transmitidos de geração para geração, com o objetivo de manter vivas ideias e valores culturais de uma comunidade passando a fazer parte da cultura local.

Nessa perspectiva, a Ilha das Caieiras, símbolo da história capixaba, pode ser considerada a síntese de parte da cultura do Espírito Santo. Por concentrar de forma singular pratos icônicos da gastronomia regional e as memórias de quem ali vive, a região poderia ser um novo sinônimo de tradição e a tradição pode ser um mote para o contemporâneo.

O Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel Passos Lyrio, espaço constantemente voltado para celebrar e fundamentar a história da região, vai ser o elo para a tradição e a arte contemporânea tendo como fio condutor outro ponto fundamental para a história das Caieiras: o mar.

A partir deste sábado, 05 de agosto, a exposição Copo de Mar coloca em cena todos esses elementos ao trazer o mar, o alimento, a religião e seus simbolismos através do olhar e das obras dos artistas Julio Schmidt, Maruzza Valdetaro e Rosindo Torres.

No recorte proposto pela artista e curadora da exposição, Franquilandia Raft, optou-se por obras que permitissem trabalhar a imaginação e a fantasia do universo lúdico, além da harmonia estética entre os trabalhos que fazem parte do Acervo da Casa Porto das Artes Plásticas, oriundos dos Salões do Mar dos anos de 1999 e 2001.

As telas “Atum Sólido ao Natural em Água e Sal”, “Sardinhas em Molho de Tomate” e “Sardinhas em Óleo Comestível” surgem da apropriação da estética publicitária, como Andy Warhol fazia, e criam a possibilidade de reinventar aquele objeto e propor um novo olhar ao público. Com um trabalho que dialoga diretamente com a pop art, Julio Schmidt ressignificou as tradicionais latas de sardinhas ao transformá-las em obra de arte.

Além do prêmio de primeiro lugar na 3ª edição do Salão do Mar, em 2001, duas das três obras produzidas fizeram parte da exposição Still Life/ Natureza Morta, mostra coletiva que reuniu grandes nomes da arte britânica e brasileira, como Leda Catunda e Luiz Zerbini, e que esteve em cartaz na Galeria do Sesi, em São Paulo, e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, entre 2004 e 2005.

Maruzza Valdetaro usa o lúdico para vestir as sereias. Os seres mitológicos ganham vestimentas de acordo com seu posicionamento no mundo. Dessa forma, a sereia do oceano Ártico ganha uma calça branca; a do oceano Antártico, uma peça rosa; e a de calça preta escamada de dourado, é do Mar das Arábias. “Roupa de Sereia” ficou com o 3º Prêmio e Júri Popular do 3º Salão Capixaba do Mar, ao vestir e propor um novo olhar sobre as rainhas do mar.

O sincretismo religioso relacionado a figuras voltadas para o mar foi a inspiração de Rosindo Torres para a criação de “Cuidado com os Parcéis”. A instalação usa imagens de símbolos religiosos, que se parecem com as imagens vendidas nos mercados populares, para reconstruir a narrativa entre o erudito e o popular, criando um diálogo entre ícones religiosos e suas imagens padronizadas.

“Copo de Mar” é uma oportunidade ímpar de diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, potencializando uma linguagem que valoriza a diversidade sem, contudo, desconsiderar o singular. Além disso, sintetiza a ideia de que, como ocupantes desta ilha, o mar está impregnado em nós. Mar que é, ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida perspectivando o horizonte. Cada um dos trabalhos desses artistas ingere essa porção de mar, tão rica nas Caierias, que nos permite saborear suas delícias gastronômicas e brindar nossa cultura.

*Texto escrito em parceria com a artista plástica Fernanda Bellumat e originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 05 de agosto de 2017.

Trampolim de Afetos

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Por ter vivido momentos-limite de tanta
intensidade, esse homem, personagem, ser, segue caminhando, não se consome; e por mais que caminhe, olhe, viva, sofra, é um homem comum. Afinal, tudo é tão simples…
Marcus Vinícius, Buenos Aires, janeiro de 2012

Abrir o baú de um amigo é mexer com as memórias, as histórias e os afetos. É o mesmo processo da Caixa de Pandora, mas no lugar de apresentar ao mundo todos os seus males vem à tona o talento, o orgulho e a saudade. Assim pode se resumir o processo de criação do livro “Marcus Vinícius: A Presença de Mundo em Mim”, organizado pelo professor Erly Vieira Jr, que seria o próximo curador/ orientador a trabalhar com Marcus Vinícius.

O trabalho não se realizou devido à partida repentina do artista em função de um mal súbito em uma viagem profissional a Istambul.  O livro funciona como um acerto de contas entre o curador e o artista, ao apresentar boa parte dos trabalhos realizados por MV – como era conhecido pelos amigos – por mais de 20 países entre os anos de 2007 e 2012.

O material reunido é praticamente inédito para a maioria dos leitores, já que boa parte dos trabalhos realizados por Marcus eram realizados in loco. Embora ele também tenha atuado como curador e pesquisador, o recorte da publicação se concentra na sua produção artística, especificamente nos campos da performance, da fotografia e do vídeo, áreas nas quais usava o próprio corpo para ampliar seu significado e transformá-lo simultaneamente em plataforma e obra de arte.

As 244 páginas da publicação apresentam um rico  material fotográfico e teórico, além de frames de vídeos, que reposiciona e imprime a real importância de Marcus Vinícius para as artes visuais no Espírito Santo, e também no Brasil, como afirma o ensaio crítico “As Múltiplas Estratégias do Corpo Segundo Marcus Vinícius”, texto inédito de Erly Vieira Jr para o livro.

“Ele foi um dos mais importantes nomes das artes visuais capixabas surgidos nos últimos 15 anos e que, no momento em que sua carreira foi subitamente interrompida, já começava a se firmar como uma voz relevante dentro da geração de performers brasileiros à qual pertenceu – tendo trilhado, inclusive, os estágios iniciais de uma promissora carreira internacional”.

Poética e tecnologia

Ao analisar as imagens dos trabalhos de Marcus Vinícius fica evidente o interesse dele em tratar de temas inerentes ao tempo pelo viés da delicadeza, mas que é diretamente oposto ao processo de execução das suas obras, que normalmente o direcionavam para situações limites em que a dor, as feridas e exaustão física eram comuns.

Exemplo disto é Frágil, performance em que ele caminhava pelas ruas da cidade coberto por um adesivo em que estava escrito a palavra título do trabalho. A sensação no olhar das pessoas era de estranheza e afeto enquanto ele inseria no espaço público algo entre a melancolia e a solidão cotidiana. Após a finalização do trabalho várias marcas ficaram por todo o seu corpo em função da fixação da cola do adesivo.

Outra obra em que a delicadeza está presente é Cicatrizes, trabalho em que ele usa uma construção inacabada e as curvas do próprio corpo como metáfora para as memórias pessoais que foram recolhidas cotidianamente e que são eternizadas em cada um de nós e permanecem de forma intrínseca, e por que não, eternas em cada um de nós.

Marcus também dialogava com todas as possibilidades do mundo virtual. Desde os extintos Fotolog e Orkut, até os atuais Facebook e Youtube, ele sempre usou as redes sociais e plataformas digitais como trampolim para estabelecer novos contatos, expor, documentar e popularizar seus trabalhos, ações que simbolizam os hábitos dos artistas de sua geração e refletem a independência da produção artística no campo das artes visuais. Além disso, mostram um artista em diálogo com as formas de comunicação contemporâneas.

Dos afetos

No início do texto eu cito a experiência de abrir os arquivos de um amigo. Digo isto, porque o processo de criação deste trabalho é uma mistura de reconhecimento, admiração e saudade. O livro foi editado por dois amigos de MV, a jornalista Aline Alves e eu, e contém entrevistas com os artistas Shima e Rubiane Maia, pessoas chave na construção do artista e também amigos e parceiros em diversos trabalhos.

O afeto permeia toda obra de Marcus Vinícius. Seu capital como pesquisador e curador eram norteados pelas relações que ele foi estabelecendo no decorrer da sua vida. Um de seus trabalhos mais emblemáticos foi o festival Trampolim, até hoje considerado um dos principais festivais de performance do Brasil, em que ele atuou como curador e artista.

Neste projeto ele reuniu mais de quarenta artistas, de várias partes do mundo, na cidade de Vitória. A maioria destes profissionais desembarcou na capital com um único objetivo: contribuir para a execução de um projeto experimental, que se tornou transgressor, a partir do talento e do capital sócio-afeitvo que MV exalava. Foi esse mesmo sentimento que nos fez unir forças e abrir para o mundo este grande baú de delicadezas em um trampolim de trabalhos movidos por afetos.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 13 de agosto de 2016, com o título “Um Grande Baú de Delicadezas”.