Carta para Fernanda Young

Ei Fernanda.

Eu ‘esbarrei’ com você pela primeira vez, no longínquo ano de 1997, na seção Living, da revista Vogue Brasil. O título do texto era Mansão Pop e, como sugere a editoria, fazia um passeio pela sua casa.

‘Mansão’ era como você, então com 27 anos, descrevia seu habitat, um apartamento clássico do final dos anos de 1940, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, que reunia uma mistura de peças clássicas com ícones da cultura pop: poltronas assinadas, mapas, pulseiras de baquelite, foto autografada da Madonna, imagens de santos. Achei tudo lindo, diferente, pra um menino gay ainda meio perdido.

No último ano da década, em 1999, você ‘reapareceu’ como a materialização da mulher moderna, no livro O Essencial, de Costanza Pascolato. A Papisa – assim com ‘p’ maiúsculo mesmo – a definiu como “capaz de assimilar informações com surpreendente rapidez. Troca, desfaz, propõe, inventa. Recria seu próprio personagem, o tempo inteiro, e é por isso que nos envolve assim – tão sedutoramente”.

Mas antes veio a escritora, para mim, no seu terceiro livro: Carta para Alguém bem Perto, ali por 1998. Um título tão belo quanto inseguro. Uma frase de alguém que precisa dizer, mas não tem coragem. Um espelho e tanto para um libriano. A história era um emaranhado de coisas, de citações rasas, de frases densas. Um texto ligeiro. Influenciado pela literatura, mas pela televisão, pela música, pela rua. Crítico. Leve. Perturbador.  Divertido.

Depois você apresentou o programa que eu adoraria ter feito, caso eu fosse um apresentador de TV, o Irritando Fernanda Young. Criou a Vani. Falou um monte de coisas das quais eu discordo, mas nunca ficou em cima do muro. Descobri que você também amava a Madonna. Era amiga e fez uma música linda com a Marina.  Ontem ouvi que a arte contemporânea está localizada na esfera do pensamento. Fernanda, você era uma metralhadora de pensamentos. Dos mais sofisticados aos mais chulos. Do jeito que a gente é quando se permite ser o que é.

Obrigado pela parceria.

Até.

L.V.

O Afeto na Central do Brasil 21 anos depois

A espinha dorsal do filme Central do Brasil é a relação entre a professora aposentada Dora (Fernanda Montenegro) e o menino Josué (Vinícius de Oliveira). O longa-metragem gira em torno do que acontece após a fatalidade que aproxima os dois personagens e da peregrinação que começa quando a dupla inicia uma viagem pelo Brasil profundo com o objetivo de encontrar o pai do garoto.

Mas antes dessa longa jornada de dias e dias adentro, o filme joga luz sobre a amizade entre Dora e Irene (Marília Pêra), vizinhas de prédio e parceiras no cotidiano de quase solidão em que as duas vivem, sem relações amorosas estabelecidas e lutando para dar conta dos perrengues do dia a dia.

Desde a primeira cena em que Irene aparece – quando Dora grita pela janela o nome da amiga e pede para que ela vá até o seu apartamento, em um plano aberto que revela o prédio em que a dupla habita e as condições sociais em que elas se enquadram – fica claro a parceria e a amizade entre as personagens.

A relação que se estabelece entre aquelas duas mulheres de meia idade, que não cumprem os padrões sociais vigentes, poderia ser definida, com base nos conceitos estabelecidos pela nova onda do feminismo, como sororidade. A palavra, quase uma eufonia, refere-se à união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e no companheirismo em busca de alcançar objetivos em comum.

Fica claro, nos quarenta minutos iniciais do filme, que elas dividem as dores e as delícias do cotidiano sem grandes emoções das duas. Quando Dora compra uma TV nova e de controle remoto (estamos falando de 1998) é com Irene que ela divide essa felicidade, em uma sequência que segue com um conselho da amiga sobre a grande burrada que a outra fez. Aquele tipo de verdade que só a amizade permite.

Também é Irene quem janta com Dora e Josué quando a primeira o abriga após a morte da mãe. Essa cena evidencia tanto a solidão quanto a força da mulher em espaços de periferia (“força” questionável já que todo mundo tem o direito, ou deveria ter, de lidar com suas dores, sem precisar passar por cima delas).

Josué, do alto da espontaneidade infantil, pergunta para Irene:

– “Você também não tem marido?”.

Sem graça, Irene olha para Dora e responde para o menino:

– “Também não…”.

O “moleque” (apelido dado por Dora a Josué) questiona outra vez:

– “Então, quem cuida de vocês?”.

Irene responde, em tom orgulhoso, a pergunta:

– “A gente mesmo cuida da gente!”.

Aqui, o machismo estrutural fica explícito, quando um menino de sete ou oito anos, não absorve a ideia de que uma mulher pode dar conta da sua vida sozinha e que, quase 21 anos depois, impera na cabeça de boa parte do público masculino.

O filme marca também um dos raros encontros entre duas das melhores atrizes brasileiras. O jogo cênico entre Fernanda Montenegro e Marília Pêra é de total cumplicidade, dando a impressão de que ninguém quer roubar a cena de outrem. Existe ali algo que pode se chamar de “sororidade cênica”.

Marília imprime um traço de docilidade quase maternal em Irene, o que a distância de imediato de uma de suas personagens mais emblemáticas na sétima arte, e que tinha a mesma profissão desta de “Central”, a prostituta Sueli, de “Pixote- A Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco.

Fernanda está para o filme como os grandes caminhões que aparecem na estrada em que a história da sua personagem percorre. Sua atuação é densa, sensível, rica. Do jeito de andar aos cabelos oleosos, a atriz se descola para que a outra apareça. Cada cena em que ela aparece, tomamos rajadas e mais rajadas de ventos. Hora refrescantes, hora muito quentes, com o peso de um mormaço. Com essas duas grandes mulheres em cena (e com o auxílio de um elenco afiado), Walter Salles pega uma grande onda e, talvez, realize seu melhor filme.

Estão ali vários dos elementos que se tornariam sua marca registrada: retratar personagens que vivem a margem (de Dora a Che Guevara); a fotografia deslumbrante que enche a tela, mas ao mesmo tempo apresenta a pobreza de forma estetizada. Como explicitou a estudiosa Ivana Bentes com o termo “Cosmética da Fome” – inspirado no texto manifesto de Glauber Rocha, “A Estética da Fome” – em que ela defende que os filmes da retomada (algo em torno de 1995-2005) mostravam o sertão árido, porém de forma quase espetacular, da linguagem e fotografia clássica, sem levantar questões mais profundas sobre as condições daquela população, que de algum jeito, o filme se propõe retratar.

Outra característica narrativa que ganha destaque em Central do Brasil, e aparece em vários outros trabalhos do diretor, e faz com que seus filmes cresçam é o road movie. Quando a câmera de Walter Salles pega à estrada seus filmes ganham nova dimensão. É assim em “Diários de Motocicleta”, onde conhecemos um Che Guevara pré-mito; ou em “Terra Estrangeira”, quando os novos exilados brasileiros se descobrem pelas ruas e estradas de Portugal.  E, em “Central do Brasil”, quando Dora e Josué desbravam e atravessam o desconhecido do mundo e o seu desconhecido para terminar embalados pelo afeto.

*Texto originalmente escrito para exercício realizado no curso “Da Cinefilia  a Crítica Cinematográfica”, ministrado por Erly Vieira Junior, no Centro Cultural Sesc Glória, em maio de 2019. 

Da semana

Uma matéria: Arte e descolonização no masp. E o tema em museus pelo mundo, Juliana Domingos de Lima para o Nexo (leia)
Uma outra matéria: A produtora mineira que tem levado o cinema periférico para o mundo, Simone freire para o Alma Preta (leia)
Um vídeo: Why should you read “Crime and Punishment”?, de Alex Gendler (veja)
Um disco: Electra, de Alice Caymmi (ouça)
Um filme:Mormaço, de Marina Meliande (trailer)
Mais uma matéria: Babayagas: Conheça o “anti-asilo” feminista que revoluciona visão da velhice na França, por Marcia Bechara para o RFI (leia)

Ney Matogrosso: sempre “atento aos sinais”

Túnicas, calças douradas e justas, botas 7/8 com salto, casacos de penas, camisetas com decotes profundos que deixam boa parte do peito nu, colares e cintos repletos de brilhos e pedrarias, além de anéis enormes e várias pulseiras que enfeitam toda a extensão dos braços. Dá para acreditar que estamos falando do guarda-roupa de um senhor de 72 anos?

Sim, se este armário pertencer a Ney Matogrosso, artista conhecido pela ousadia, irreverência e voz única, que há mais de 40 anos, quebra padrões e sacode a música brasileira. Consciente do “burburinho” que suas aparições causam, Ney afirma que nada é muito pensado. “Eu vou pela minha intuição. Sigo despreocupado e vou fazendo o que da na minha cabeça, mas sempre muito bem acompanhado” afirma o cantor.

Prova disso é o seu novo show Atento aos Sinais – que faz voo rasante na capital capixaba no próximo dia 05 de outubro, no Arena Vitória – onde ele abre mão dos grandes sucessos para dar voz a um repertório que privilegia novos nomes da música brasileira como o rapper Criolo e a banda Tono, além da maior produção que o artista já levou aos palcos com quatro telões de led que projetam imagens criadas pelo artista Luiz Stein.

Segundo Ney, o set list arrojado de seu atual show é muito bem recebido pelo público. “Eu não observo cansaço na plateia. Percebo o público atento do começo ao fim do espetáculo” explica o cantor que deve lançar o registro em CD do novo trabalho (que já está gravado) em outubro.

Outra prova do carisma de Ney aconteceu na recente apresentação do cantor no Rock in Rio, onde ele era um dos convidados do time de músicos que homenageou Cazuza. A plateia muito jovem cantou com ele alguns dos grandes sucessos do saudoso “Agenor” em um momento que o cantor definiu como “um reencontro de amigos. Com os meninos do Barão [Vermelho], com a Bebel [Gilberto], todos com a mesma sintonia. Foi uma coisa muito amorosa”.

Fora a música o cantor anda flertando com o cinema onde protagonizou alguns curtas-metragens e o filme A Volta do Bandido da Luz Vermelha. “Eu tenho abertura para outras coisas” explica ele sobre esse envolvimento com a sétima arte e afirma que não sabe o que falta fazer depois de tantos anos de carreira. Mas de uma coisa ele tem certeza: o público adora seus shows. “Vão assistir. Aposto que vocês vão gostar” finaliza com sua gargalhada tímida.

*Texto originalmente publicado no Portal SOUES, em 30 de setembro de 2013.

Da semana

Um clipe-música: Nothing Breaks Like a Heart, Mark Ronson feat. Miley Cyrus (ouça-veja)
Uma música: Noite Vazia, Thiago Pethit (ouça)
Uma outra música: Dia Lindo, Terno Rei (ouça)
Uma entrevista: Gabriel Hilair para Nexo (leia)
Uma matéria: Indígenas e Gays: jovens contam como é ser LGBT dentro e fora das aldeias, G1 (leia)

Um Tom pra Cantar

Medalhões, novos nomes e artistas com algum tempo de estrada apresentaram singles, EP’S e álbuns instigantes provando que, a produção musical brasileira de 2018, é uma das mais potentes e instigantes da última década. Montei uma playlist de 25 músicas que passeia por vários gêneros e da um breve panorama do que foi lançado no último. Então aperte o play e divirta-se.

play

Das Semanas

Ainda de 2018…

Um documentárioImpério dos Memes, Bert Marcus (trailer)
Um livro: Caminhando Contra o Vento, Igiaba Scego (leia o 1º capítulo)
Um outro livro: Sérgio Y. Vai à América, Alexandre Porto Vidal (leia um trecho)
Um clipe: Pantera Negra Deusa, Daniela Mercury (veja)
Uma música: Calmô, Liniker e os Caramelows (ouça)
Uma outra música: Chapadinha na Praia, Duda Beat (ouça)

Tinta Bruta: Solidão Fluorescente na Tela Grande

Depois de uma estreia decepcionante – ao menos para mim – com o morno Beira-Mar, a dupla de cineastas gaúchos Filipe Matzembacher e Márcio Reolon mantém o olhar nas questões contemporâneas do universo LGBTQI+ no ótimo Tinta Bruta.

O longa-metragem foi vencedor do principal prêmio do cinema LGBT no mundo, o Teddy,no Festival de Berlim, além de ganhar quatro prêmios, entre eles o de melhor filme, no Festival do Rio, em 2018.

O filme conta a história de Pedro (Shico Menegat) um rapaz introspectivo e recluso que, após sofrer constantes ataques homofóbicos, está sob julgamento depois de ser expulso da faculdade por agredir um de seus colegas de turma.

Para conseguir fechar o mês com as contas quase em dia, o rapaz faz apresentações virtuais e ganha destaque no mundo virtual com o nickname “Garoto Neon”, uma analogia as tintas fluorescentes que ele espalha no corpo durante as performances de webcam de alto teor erótico que realiza para os seus seguidores.

É neste espaço virtual que o personagem se liberta das amarras e deixa a introspecção de lado. Mas tudo muda quando ele descobre que o bailarino Leo (Bruno Fernandes) está fazendo apresentações semelhantes as suas e ‘roubando’ seus clientes/ admiradores/ seguidores.

Para minimizar as perdas, os dois começam a se apresentar em dupla e a partir daí, o filme entra em turbilhão de eventos comuns a boa parte das pessoas – embora tenha particularidades do universo gay – ao apresentar os desdobramentos que essa figura causa no cotidiano de Pedro e debater sobre a solidão urbana e o esvaziamento das grandes cidades.

Na crescente dos acontecimentos, o longa levanta questões como a homofobia e sua violência gratuita, as formas de prazer fluidas e expandidas pela geração pós-millennials – aquela em que as pessoas já nasceram e são criadas com a internet -, além das possíveis novas configurações de relacionamentos.

O filme tem uma belíssima fotografia e uma ótima trilha sonora que dialoga com o melhor da nova cena musical brasileira nas vozes e canções de nomes como Jaloo, Carne Doce e Letrux que auxiliam na forma de contar essa história que leva o espectador a refletir sobre a sensação de não pertencimento, de estar só mesmo estando constantemente conectado.

Das Semanas

Um filme: Infiltrado na Klan, Spike Lee, (trailer)
Um outro filme: As Viúvas, Steve McQueen (trailer)
Mais um filme: As Boas Maneiras, Juliana Rojas e Marco Dutra (trailer)
Ainda um filme: Tinta Bruta, Filipe Matzembacher e Márcio Reolon (trailer)
Um musical: Elza, Duda Maia (saiba mais)
Uma peça de teatro: A Ponte, Adriano Guimarães  (saiba mais)
Uma exposição: Raiz, Ai Weiwei, Oca Ibirapuera (saiba mais)
Uma outra exposição: Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana [1960-1985], Pinacoteca (saiba mais)
Mais uma exposição: Ocupação Ilê Aiyê, Itaú Cultural (saiba mais)

O Jeito de Fabriccio

Representatividade. substantivo feminino. 1. qualidade de representativo 2. qualidade de alguém, de um partido, de um grupo ou de um sindicato, cujo embasamento na população faz que ele possa exprimir-se verdadeiramente em seu nome.

Diante do atual momento conservador pelo qual passa o Brasil, e também o mundo, a aplicação do conceito de representatividade no cotidiano se faz cada vez mais urgente. Com seus dreads locks e sorriso escancarado, acompanhado do seu violão e teclado, o cantor Fabricio é um ótimo representante tanto do artista consciente da problemática étnico-racial brasileira e da importância do protagonismo negro na cena musical, quanto da boa música produzida no Espírito Santo na atualidade.

Prova disto é a coletânea digital “Novíssima Música Brasileira”. Recentemente lançado, esse disco virtual traz 18 faixas – cinco delas inéditas, três produzidas para o disco – de bandas e artistas de várias partes do Brasil como Salvador, Recife, Natal, Aracaju, além de Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Do Espírito Santo, fazem parte desse projeto a banda Muddy Brothers e Fabricio, com “Feito Tamborim”, música originalmente produzida para o EP “Desajeito”, de 2013, trabalho que ele considera ser “um marco do início dessa vontade de compor canções, de cantar e de expressar de forma mais efetiva minhas influências da música negra norte-americana e da brasileira”.

O cantor acredita que as novas formas de produzir e consumir música, com a internet e os serviços de streaming, por exemplo, democratizaram o caminho para se fazer música. “Percebo que a tecnologia mudou muito as coisas e aproximou quem tem menos acesso da possibilidade de produzir artisticamente. Quando um artista que está começando, como eu, tem a oportunidade de dividir o palco, páginas de jornais/ sites e faixas em coletâneas com artistas que já estão rodando o Brasil e o mundo é maravilhoso e altamente motivador”.

Espírito Musical

O primeiro contato com a música veio do período em que frequentou a igreja na companhia da mãe, mas ele logo percebeu que o caminho para a música não seria naquele espaço. “O musical nesse meio era totalmente frio e condicionado a vários fatores que não tinham nada a ver com música e nem com espiritualidade. Considero a minha vivência  com as bandas durante a adolescência – Bob Marley, no céu, e Black Sabbath, na terra – como minha porta de entrada pra tudo que rolou e há de rolar com música”.

Entre o reggae e o rock, Fabrício descobriu o funk e o soul americano e a música brasileira de várias gerações. “No som que faço hoje com meu trabalho solo percebo e enfatizo a influência dos clássicos da Motown, Stax, Atlantis e toda negrada americana do funk e soul. O contato com o rap brasileiro foi algo fundamental pra mim como ouvinte. Racionais MC’S, Rzo e todos esses clássicos nacionais, através dos quais eu fui apresentado ao Jorge Ben, James Brown, George Clinton. Foi esse som que me deu a possibilidade de fazer algo musical próximo da minha realidade. O rap nacional pra mim, e pra muitos, foi e é definitivo e acima de tudo didático”.

A cena hip hop é tão forte para o músico que, entre os parceiros de geração, ele destaca vários nomes como WC Beats, Mano Feijó e Preta Roots. “A cena do rap capixaba, de uma forma geral, é um dos núcleos mais produtivos e significativos desde sempre na música autoral e na produção independente por aqui no Estado”, afirma o artista que também destaca, fora do rap, os nomes de  Claudson Sales,Thiago Perovano e Thais Uchôa com quem já teve o “prazer de tocar, fazer parcerias e criar junto”.

Ainda sobre representatividade

Para Fabrício, mesmo com a contribuição histórica de artistas negros para a música mundial, os espaços e, principalmente, a visibilidade ainda são pequenos. “Os negros sempre estiveram na vanguarda musical em 90% da música feita no mundo. Mas nem sempre são tão bem vindos sob os holofotes, principalmente quando se afirmam como tal. Por mais que tenhamos negros em todas os nichos musicais sinto que há uma certa invisibilidade tanto do artista negro em si quanto do papel do negro na música. E no Brasil isso é muito forte”.

Mas Fabrício também acredita que as mudanças no consumo da cultura de massa, com a popularização e democratização da rede, estão mudando a visibilidade do artista negro. “Os tempos mudaram, a internet, o modo que se consome música e entretenimento também, assim como o lugar que a música negra conquistou, ficou impossível pra grande mídia ignorar. Isso acontece desde James Brown e aconteceu quando a indústria absorveu o rap. É lindo, e ainda mais no caso da Beyoncé, uma mulher, negra, no topo da musica pop americana, falando para e sobre negros. É maravilhoso, histórico e sintomático”.

Para ele, essa representatividade se faz necessária para que as questões de preconceito diminuam reforçando a aceitação. “Hoje temos em posição de destaque na cena independente nacional negros e negras como Liniker e Tássia Reis.  E eu vejo uma galera cantando as letras nos shows, se identificando, se sentindo representado. Pra um negro ou negra jovem ter artistas com os quais eles se identificam é maravilhoso, porque, geralmente, tudo à nossa volta nos leva a crer desde criança que não somos bonitos, que não somos capazes e sempre nos relacionam com coisas tão negativas. Ter figuras assim é tipo ‘sim, eu posso!’. Isso sempre gera frutos, na música e na vida, eu sou fruto desse tipo de relação”.

*Texto originalmente publicado na revista Bless Magazine, Edição nº 05/ Ano 2015.