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A vez e a hora das séries

Obras audiovisuais em formato seriado têm ganhado cada vez mais público e janelas de exibição e viabilizado a sustentabilidade econômica da produção independente. Experiências capixabas mostram que as séries são um espaço fecundo para experimentação de linguagem e veiculação das mais diversas temáticas

Se para você maratona é apenas uma corrida de longa distância, as suas definições sobre o termo precisam ser atualizadas. Brincadeiras à parte, maratona também é o hábito de assistir a vários episódios de uma série em sequência. A prática ganhou força com a popularização, nas últimas décadas, de produções, hoje clássicas, como Friends e Sex and the City, além de sucessos contemporâneos como Grey’s Anatomy, House of Cards e Game of Thrones.

A forma como os espectadores foram mudando o hábito de consumir programas de televisão aconteceu de forma significativa a partir da popularização e qualidade da internet. Os serviços de streaming são uma ferramenta decisiva para esta mudança. Cada vez mais o público brasileiro se adapta às mudanças e a novos suportes como computadores, smartphones e tablets, além do próprio aparelho de TV.

A tecnologia streaming permite que se acompanhe a transmissão de um evento ao vivo – como um show – ou, no formato on demand, em que o usuário pode escolher quando, onde e o que pretende assistir. As duas formas mais populares de consumo on demand no Brasil são a Netflix e o Youtube.

O Brasil foi o primeiro mercado internacional da Netflix, que chegou aqui em 2011. A série 3%, thriller de ficção científica pós-apocalíptico, foi a primeira produção brasileira original desenvolvida para o canal. Lançada em 19 países, 3% é a série de língua não-inglesa mais assistida nos Estados Unidos, além de um bom desempenho na Austrália, Canadá, França, Itália, Coreia do Sul e Turquia.

Já o Youtube é o espaço mais democrático tanto para o consumo quanto para a produção de conteúdo. Tudo pode ser encontrado ali: de culinária a vídeos de pegadinha, de programas religiosos aos canais dos Youtubers, além de produções audiovisuais seriadas ou, como são popularmente conhecidas, as webséries. Tendo a web consolidada como uma plataforma de veiculação da produção audiovisual, cada vez mais e mais produtores foram se aventurando na produção de conteúdo.

Além disso, o fomento público realizado por meio de editais de cultura e a implementação da Lei da TV Paga (Lei nº 12.485/2011) democratizaram a produção e o acesso a essas obras. Essa nova legislação determina que todos os chamados canais de espaço qualificado devam veicular um mínimo de 3h30 de conteúdo brasileiro semanalmente em horário nobre, sendo metade de produtora independente. Vale um adendo: de acordo com dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2016, foram registradas 3007 horas de obras independentes, sendo 68% de obras seriadas.

O mercado de conteúdos para a televisão ou para serviços on demand, especialmente em formato seriado, tem se mostrado crescente e capaz de alavancar a indústria audiovisual brasileira traçando sustentabilidade econômica para o setor. Catalisada pelos investimentos públicos, a produção de séries tem possibilitado que as produtoras independentes desenvolvam obras audiovisuais visando uma carreira comercial que era bem restrita há alguns anos. Essa nova realidade tem impactado positivamente na gestão e organização da produção audiovisual independente.

Novos filhos da web

Uma das primeiras webséries produzidas no Espírito Santo foi o Filossofá, idealizada e dirigida por Marcos Luppi. A websérie era um talk show itinerante, que tinha como cenário um sofá laranja que era deslocado a cada episódio para um cenário que dialogava com o tema e o entrevistado, podendo tanto ser as dunas de Itaúnas quanto uma avenida movimentada. Nas entrevistas, filosofia, poesia e humor pastelão para tirar o bate-papo do lugar comum.

“A ideia do Filossofá, surgiu quando eu estava pensando, aos 21 anos, em uma TV on-line. Com quatro episódios lançados entre 2010 e 2011, este ‘talk show‘ itinerante veio como a 17ª e última ideia para fechar o quadro de programação da TV ou canal on-line” explica Luppi. Para ele, a ideia era criar algo inusitado. “Levar um sofá para ambientes externos causa estranheza e a estranheza nos faz sempre repensar”.

O primeiro ano da série foi resultado do projeto de pós-graduação de Marcos. Os episódios do Filossofá passaram a integrar o conteúdo on-line do programa de rádio Vice Verso, veiculado na Rádio Universitária 104.7 e apresentado, à época, por Jamille Ghil e Ítalo Galiza, parceiros do diretor na produção.

O programa foi oferecido para dois canais de televisão antes de ir para a internet. Hoje, sete anos depois, Luppi acredita que o resultado do projeto talvez não fosse tão original e moderno se tivesse se consolidado na TV. “A linguagem teria que ser menos. Menos experimental, menos abusada na montagem. A TV, depois dos anos 1990, ficou careta na linguagem de enquadramentos e cortes. Tá tudo igual e bonitinho. A ideia era abarrotar de metalinguagem entre a narrativa, a linguagem, o tema, o cenário, o entrevistado e a entrevistadora. Não sei se na TV seria um lugar pra isso”.

Para ele, a televisão perde cada vez mais espaço para a internet. Isso em função do mundo contemporâneo que desestabilizou a rotina a partir da evolução tecnológica e, consequentemente, cultural. “O óbvio já não me segura olhando para TV. Eu tenho meu smartphone na minha mão, posso consultar agora, talvez ao vivo, o que meu ídolo está falando, comendo, lendo, trepando, lá nos lives do Instagram, por exemplo. Então, não é só uma questão de programação, não é só uma questão de interatividade, não é só uma questão de infinitas plataformas, não é só uma questão de originalidade. É tudo isso junto e numa perspectiva sem fórmulas concretas do que se pode ou não se pode fazer”.

Regionalizando a produção televisiva

Um dos destaques da produção audiovisual é a oportunidade de transversalizar conteúdos. Apresentar um olhar sobre a cultura de cada região ganha nova dimensão a partir da produção de filmes e séries, o que oxigena narrativas, amplia o alcance da cultura local e torna seus produtos finais ainda mais interessantes. Para estimular essa diversidade na telinha e contribuir com produção de conteúdos regionais, o Fundo Setorial do Audiovisual lançou as chamadas Prodav TVs Públicas em 2014 e 2015. Do Espírito Santo, dois trabalhos foram selecionados por essas chamadas: Zora Curiosa, da Ventania Produções; e Habitação Social – Projetos de um Brasil, da Pique-Bandeira Filmes.

Idealizada por Maria Grijó e Diego de Jesus, a série de ficção Zora Curiosa é um retorno às memórias de infância da dupla e conta com 27 episódios de dois minutos. “A ideia surgiu de uma vontade nossa de produzir algo para crianças que remetesse às produções que nós víamos quando pequenos e também em abordar as brincadeiras do nosso estado e mostrá-las para crianças de todo o país”.

Em fase de produção, a série documental Habitação Social – Projetos de um Brasil é uma coprodução entre as produtoras Pique-Bandeira Filmes e A Flor e a Náusea, de São Paulo, e trata de diferentes projetos de moradia de interesse social. Com ideia original e direção geral de André Manfrim, os 13 episódios de 26 minutos desenrolam em ordem cronológica uma história da habitação social no Brasil. “A ideia nos foi apresentada pelo André e pela equipe da produtora paulista ainda em fase de desenvolvimento. A partir daí trabalhamos juntos no projeto e na estrutura da série”, explica Vitor Graize, codiretor do projeto e fundador da Pique-Bandeira.

Segundo Vitor, a oportunidade de se realizar um trabalho em parceria permitiu à equipe a possibilidade de ampliar o olhar sobre o processo de produção. “A coprodução é um exercício de escuta e de compartilhamento. Nesse caso, como a equipe é composta por profissionais sediados em Vitória e em São Paulo, necessitávamos de uma base de produção e uma equipe de produção na capital paulista. Foi muito importante nesse sentido e também no desenvolvimento da série”.

Além da oportunidade de chegar a “outros brasis”, ser contemplado por um edital público garante condições de trabalho mais potentes para os realizadores. “O prêmio para a produção da série nos obrigou a planejar o trabalho em função desse projeto pelos próximos dois anos, pelo menos. Também tivemos a possibilidade de investir na estrutura da produtora, pois a produção da série simultaneamente a outros projetos que vinham sendo realizados nos exigia uma estrutura mais ampla. O prêmio para a produção nos deu também tranquilidade, pois uma das principais questões da produção audiovisual é a dúvida se teremos recursos para produzir os próximos projetos e consequentemente manter a estrutura criada”, diz Graize.

Maria Grijó e Diego de Jesus consideram estas iniciativas fundamentais para dar visibilidade e incluir produtoras de outras regiões do país no mapa da produção audiovisual. “O edital de produção para TVs Públicas, que só teve duas edições infelizmente, é ainda mais importante nesse processo já que, por ter se mostrado mais diverso do que as outras linhas e não ser voltado exclusivamente para uma produção comercial, acabou por se tornar uma porta de entrada para as produtoras de estados menos tradicionais”.

Para Vitor Graize, os editais são uma forma de democratizar a programação televisiva, além da oportunidade de empresas independentes terem alcance e representatividade em todo o território brasileiro. “Acredito que as diferenças não se dão em função do público x privado, mas principalmente pela linguagem específica do meio: a televisão. Além disso, o que certamente mudaria seria a possibilidade de uma empresa produtora independente situada no Espírito Santo produzir uma série de abrangência nacional. Essa é uma das principais qualidades dos editais de TV – não só públicas, pois há linhas de fluxo contínuo e outras para as TVs privadas – do Fundo Setorial do Audiovisual, abrir espaço para produções independentes situadas fora do eixo econômico e político do audiovisual brasileiro. Assim, a TV ganha novas vozes, novos sotaques e formas de olhar o mundo. Essa é a principal importância do Fundo Setorial do Audiovisual”.

Janelas para diversos assuntos

No Espírito Santo, uma variedade de séries foi aparecendo nos últimos anos. Música, mobilidade urbana, questões de gênero, coletivos culturais, todos os temas cabem no formato e a maior parte desses projetos usam a internet como plataforma para circulação. Deriva Sessions e Pedal, da Ciano Filmes, são dois bons exemplos disso. O primeiro projeto reúne dois músicos – também diretores – para falar sobre música instrumental. A ideia surgiu pela carência de espaços para tratar o assunto.

“Os programas de cultura no rádio e na TV são raros e não conseguem abarcar em profundidade a produção de música autoral e instrumental. Deriva desponta, então, como um espaço importante para ecoar a produção autoral da música instrumental capixaba, primando por vídeos com alta qualidade na captação do som e da imagem, sendo uma forma de qualificar também o material de divulgação dos músicos envolvidos”, explica Luanna Esteves, produtora e diretora da série.

De acordo com ela, a escolha pela internet é por ser um território acessível para se difundir e se democratizar a arte, além de ser um caminho para aproximar o público do compositor. “A internet é o espaço para democratizar o acesso aos conteúdos, diferente da TV que se limita a estabelecer uma comunicação unilateral. São mídias diferentes, apesar de a internet pautar cada vez mais as linguagens e narrativas da TV”.

Deriva fez sua estreia em 2016, conta com seis episódios e foi produzida com recursos do Fundo Estadual de Cultura (Funcultura), por meio do Edital de Projetos Culturais Setoriais de Música. O formato seriado foi escolhido pela oportunidade de ampliar o número de personagens do programa, além de detalhar seus trabalhos. “A proposta é apresentar a obra de compositores diferentes, num formato que permita a exibição de, pelo menos, duas de suas músicas e um bate-papo descontraído. Tendo um formato predefinido, conseguimos transitar por diferentes contextos, sonoridades, sem perder a identidade da série”.

Pedal, série ainda inédita, surgiu após a viagem do diretor Ramon Zagotto pela Holanda e a percepção das bicicletas como meio de transporte. “Mudei para Vitória e a distância do meu deslocamento diário passou a ser humanamente possível de ser percorrida de bicicleta. A partir daí comecei a pensar o porquê de não existirem muitas pessoas fazendo isso, já que é relativamente fácil se deslocar de bicicleta por Vitória. Daí surgiu a ideia da série. Eu queria investigar essa questão e, principalmente, estimular outras pessoas a começarem a pedalar”.

O trabalho inicialmente foi pensado como série em função de um edital público. À medida que o projeto foi sendo desenvolvido, a produção seriada foi sendo uma alternativa para várias possibilidades de veiculação para além da internet. “Fomos desenvolvendo o projeto e consolidando-o como série pensada também para a exibição em canais de televisão. No nosso caso de série documental, acredito que o fato de você poder dividir um produto em episódios torna-o mais didático para o público. Desse modo, ele também pode selecionar e consumir apenas o que julgar mais interessante dentro da obra completa”, explica Ramon.

Os dois diretores afirmam que os editais são fundamentais para fomento da produção audiovisual autoral. “Toda produção audiovisual é custosa, precisa de dinheiro para garantir um resultado final com boa qualidade de captação e finalização, ainda que para a internet. O Deriva traz um conteúdo naturalmente ‘nichado’, não é todo público que se interessa. No meu entendimento, ele tem vez na TV paga e na internet. E quem banca o piloto da TV paga, senão edital? E quem banca produção pra internet com um conteúdo mais direcionado, senão edital?”, pergunta Luanna.

Para Ramon, este tipo de financiamento se torna importante pela qualidade do produto apresentado, além do fazer artístico. “No nosso contexto, é bem difícil conseguir produzir uma série autoral completa – com o mínimo de profissionalismo – sem recurso de edital ou lei de incentivo. A não ser que você tenha um merchandising poderoso envolvido ou uma equipe que compre sua ideia e dê o sangue pela obra”. E acrescenta: “O mais importante desses financiamentos é que eles dão a oportunidade de os produtores desenvolverem suas obras sem a necessidade do apelo comercial, o que torna a expressão artística mais autêntica e as motivações políticas mais verdadeiras”.

Espaço para ativismo

Abrir caminho para que outros coletivos da Grande Vitória ganhem visibilidade. Esta é a proposta da série Fagulha, que está disponível no Youtube, uma parceria do Assédio Coletivo com o Bonde – Núcleo Móvel. “A websérie vem na tentativa de dar conta das produções de coletivos culturais que em sua maioria estão à parte das grandes mídias ou das linhas de financiamento que existem para projetos. Entendemos que deveríamos utilizar da nossa capacidade de espalhar conteúdo, por se organizar em rede, para poder mostrar possibilidades de transformação de realidades de coletivos que em sua maioria atuam territorialmente ou de forma desterritorializada em periferias”, explica Guilherme Rebêlo, o produtor do Assédio Coletivo e do Bonde – Núcleo Móvel de Comunicação. Lançada no final de 2016 e composta por quatro episódios, Fagulha foi produzida com recursos do Funcultura por meio do Edital de Coletivos Artísticos Juvenis.

O momento de afirmação da identidade enquanto mulher negra foi o pontapé para a produtora cultural Charlene Bicalho produzir a websérie Raiz Forte. “Assim como a maioria das mulheres negras que passam por esse processo, as buscas por minhas identidades iniciaram a partir do momento que resolvi assumir meus cabelos crespos. Depois disso passei a buscar outros espelhos, identidades, me recriar, me remontar”.

A identificação de outras mulheres levou Charlene a pensar no trabalho. “O reflexo imediato de outras mulheres ao se depararem com meu corpo, me despertou a necessidade de comunicar com um número maior de pessoas sobre as questões que perpassam todas as instâncias de nossas vidas e que tinham em comum o cabelo como fio condutor. Daí, surgiu a ideia de criação da websérie enquanto plataforma para narrativas em primeira pessoa”.

Composta por três episódios, Raiz Forte aborda a relação de mulheres com sua negritude a partir do cabelo nas fases da infância, adolescência e vida adulta. Realizado em 2012, essa projeto foi contemplado pelo Edital de Websérie do extinto Programa Rede Cultura Jovem. Em 2016, essa primeira experiência se desdobra na websérie Mulheres de Raiz Forte com perfis de mulheres de diferentes estados brasileiros que explicitam o modo singular como cada uma delas assume sua negritude nos dias atuais.

Para Charlene, as webséries são um caminho para se chegar direto ao público. “Um formato série destinada à internet nos proporciona uma flexibilidade no desenvolvimento do trabalho, sem regras, restrições e exigências geralmente impostas por emissoras, por exemplo, nos permite também trabalhar com episódios menores, gratuitos, alcançando assim uma resposta imediata do público”.

Segundo Guilherme, as webséries são a possibilidade de se produzir um material que “se aproxima da linguagem da TV e apresenta uma narrativa de fácil acesso tanto pelo tamanho de cada um dos episódios, quanto pela rapidez com que os conteúdos podem ser assimilados. A internet reinventa várias possibilidades de interação e difusão de conteúdos que a TV nunca deu conta justamente por ser um formato de poucos para muitos. Mas não são independentes, porque um reverbera no outro”.

MEMÓRIA: Telecontos Capixabas

A literatura sempre foi uma fonte de inspiração para as produções audiovisuais. Não é de hoje que a televisão e o cinema mantêm um caso de proximidade com o universo literário. São vários filmes e novelas de sucesso adaptadas de um livro, uma peça, um conto ou um poema. Entre 1984 e 1985, a TV Educativa do Espírito Santo flertou com a obra de autores que produziam no estado e produziu a série Telecontos Capixabas.

O programa, idealizado e dirigido por Toninho Neves, levou ao ar 12 programas que tinham em média 40 minutos, divididos em dois blocos, e apresentavam a produção literária capixaba na televisão. “Isso era muito importante: todos eram autores capixabas. Passamos entre oito meses e um ano gravando esse trabalho”, relembra Gerusa Contti, atriz e produtora do programa.

De acordo com Gerusa, a ideia de realizar os Telecontos Capixabas surgiu a partir da produção de outro programa que era realizado na emissora chamado Periquito Maracanã. “Os telecontos foram uma sequência de um trabalho que Toninho Neves fazia na TV Educativa. Daí em diante, a gente viu que poderia fazer um trabalho maior, melhor e mais bem feito. Toninho, que era cineasta, tinha estudado na Rússia e estava à frente do departamento de criação da TV na época e sugeriu essa pauta”, relembra ela.

Os programas eram produzidos com recurso da própria TVE. A equipe era formada por Toninho Neves, diretor geral; Gerusa que, além de atuar e adaptar, também produzia ao lado de Vera Viana; Cristina Valadão e Denize Martins. A série levou ao ar programas inspirados nos textos de autores como Ricardo Conti, Alvarito Mendes Filho e do próprio Toninho Neves, além de contar no elenco com os atores José Augusto Loureiro, Markus Konká, Márcia Gáudio, Luiz Tadeu Teixeira, entre outros.

Para Gerusa, a produção dos programas é a prova de que as tevês educativas podem ser uma vitrine e um espaço de valorização dos artistas locais. “Além de ser a adaptação de textos de autores capixabas, o trabalho envolveu grande parte dos artistas capixabas, dos atores capixabas. A importância deste trabalho é que uma TV pequena, uma TV regional, pode fazer um trabalho bom, ela pode levantar o trabalho literário de uma cidade e dos artistas daqui”.

*Texto originalmente publicado em Milímetros – Revista do Audiovisual Capixaba, Edição nº 07/ Ano 2017. 

Um Copo Vazio Cheio de Mar

LOGOTIPO2_COPODEMARDe acordo com o dicionário, a palavra tradição é um conjunto de fatos, lendas, ritos, usos e crenças, transmitidos de geração para geração, com o objetivo de manter vivas ideias e valores culturais de uma comunidade passando a fazer parte da cultura local.

Nessa perspectiva, a Ilha das Caieiras, símbolo da história capixaba, pode ser considerada a síntese de parte da cultura do Espírito Santo. Por concentrar de forma singular pratos icônicos da gastronomia regional e as memórias de quem ali vive, a região poderia ser um novo sinônimo de tradição e a tradição pode ser um mote para o contemporâneo.

O Museu Histórico da Ilha das Caieiras Manoel Passos Lyrio, espaço constantemente voltado para celebrar e fundamentar a história da região, vai ser o elo para a tradição e a arte contemporânea tendo como fio condutor outro ponto fundamental para a história das Caieiras: o mar.

A partir deste sábado, 05 de agosto, a exposição Copo de Mar coloca em cena todos esses elementos ao trazer o mar, o alimento, a religião e seus simbolismos através do olhar e das obras dos artistas Julio Schmidt, Maruzza Valdetaro e Rosindo Torres.

No recorte proposto pela artista e curadora da exposição, Franquilandia Raft, optou-se por obras que permitissem trabalhar a imaginação e a fantasia do universo lúdico, além da harmonia estética entre os trabalhos que fazem parte do Acervo da Casa Porto das Artes Plásticas, oriundos dos Salões do Mar dos anos de 1999 e 2001.

As telas “Atum Sólido ao Natural em Água e Sal”, “Sardinhas em Molho de Tomate” e “Sardinhas em Óleo Comestível” surgem da apropriação da estética publicitária, como Andy Warhol fazia, e criam a possibilidade de reinventar aquele objeto e propor um novo olhar ao público. Com um trabalho que dialoga diretamente com a pop art, Julio Schmidt ressignificou as tradicionais latas de sardinhas ao transformá-las em obra de arte.

Além do prêmio de primeiro lugar na 3ª edição do Salão do Mar, em 2001, duas das três obras produzidas fizeram parte da exposição Still Life/ Natureza Morta, mostra coletiva que reuniu grandes nomes da arte britânica e brasileira, como Leda Catunda e Luiz Zerbini, e que esteve em cartaz na Galeria do Sesi, em São Paulo, e no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, no Rio de Janeiro, entre 2004 e 2005.

Maruzza Valdetaro usa o lúdico para vestir as sereias. Os seres mitológicos ganham vestimentas de acordo com seu posicionamento no mundo. Dessa forma, a sereia do oceano Ártico ganha uma calça branca; a do oceano Antártico, uma peça rosa; e a de calça preta escamada de dourado, é do Mar das Arábias. “Roupa de Sereia” ficou com o 3º Prêmio e Júri Popular do 3º Salão Capixaba do Mar, ao vestir e propor um novo olhar sobre as rainhas do mar.

O sincretismo religioso relacionado a figuras voltadas para o mar foi a inspiração de Rosindo Torres para a criação de “Cuidado com os Parcéis”. A instalação usa imagens de símbolos religiosos, que se parecem com as imagens vendidas nos mercados populares, para reconstruir a narrativa entre o erudito e o popular, criando um diálogo entre ícones religiosos e suas imagens padronizadas.

“Copo de Mar” é uma oportunidade ímpar de diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, potencializando uma linguagem que valoriza a diversidade sem, contudo, desconsiderar o singular. Além disso, sintetiza a ideia de que, como ocupantes desta ilha, o mar está impregnado em nós. Mar que é, ao mesmo tempo, ponto de chegada e ponto de partida perspectivando o horizonte. Cada um dos trabalhos desses artistas ingere essa porção de mar, tão rica nas Caierias, que nos permite saborear suas delícias gastronômicas e brindar nossa cultura.

*Texto escrito em parceria com a artista plástica Fernanda Bellumat e originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 05 de agosto de 2017.