Do muito que fica quando as coisas acabam

Texto de Ana Laura Nahas
12/ 04/ 15

A verdade é que as coisas acabam, os amores, as esperas, as noites felizes, os doces da caixa, as histórias, os livros, o Domec e as dores. As esperanças acabam, e as revoltas, as reformas e as revoluções. O dinheiro de vez em quando acaba, e também os créditos, as crenças e as razões para querer um sujeito que não quer de volta.

As viagens um dia acabam, Rio de Janeiro, Havana, Paris, São Tomé das Letras, Marataízes, Ribeirão Preto, las tardecitas de Buenos Aires, Londres cinza cerveja parede vermelha comida tailandesa e o boteco dos brasileiros na escola de estudos econômicos, qualquer lugar de ônibus, trem, carro ou de avião e a gente depois chegando em casa, desfazendo as malas, voltando diferente pra vida que levava antes.

A verdade é que até as canções acabam.

[Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim]

O inverno acaba e o calor [oba] acorda o corpo inteiro de manhã, os olhos cansados de ontem à noite, as plantas da varanda, as músicas de antes de dormir, os pensamentos desconexos, as descobertas inesperadas, as obrigações apressadas, louça pra lavar, lixo pra jogar fora, contas pra pagar, poeira pra tirar, aula de pilates, revista e jornal, amor, trabalho e uma sexta-feira inteira de sono atrasado, risco, família, sentido, promessa, gratidão, bicicleta na praia. Até as histórias de amor acabam, e todo o resto que cabe no sol. O tempo acaba, e às vezes também a imaginação. A verdade é que até a vida acaba.

Mas a memória é poderosa, enche os vazios e ameniza o presente quando nem cachaça nem aspirina nem morfina fazem o buraco parecer menor. A memória faz as pessoas conhecerem o verdadeiro valor dos momentos. Daí, vai ver, a gente entende no dia seguinte a importância daquele abraço, no mês seguinte percebe o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimila as palavras do último outono, vive de novo e com outro olhar as mesmíssimas coisas, com outro peso, ou sem peso.

Um dia as faltas incomodam menos e a gente vive melhor.

Originalmente publicado aqui.

 

A semana

  • Um clipe: Te Parece, Tamy (veja)
  • Um outro clipe: Fire, Beth Ditto (veja)
  • Um documentário emocionante: Strike a Pose, Ester Gould & Reijer Zwaan (trailer)
  • Um EP: Fullgás, Qinho (ouça)
  • Uma música: Estrangeiro, Caetano Veloso (ouça)
  • Uma série: 13 Reasons Why, Brian Yorkey (trailer)

Que horas ela volta?

Qualquer coincidência não é mera semelhança:

(…) A Esméria recomendou que eu me comportasse bem, nunca dizendo nada que não fosse perguntado, nunca fazendo o que não fosse pedido e nunca desobedecendo ou questionando, mesmo quando achasse que uma ordem estava errada ou era injusta. Era assim que as coisas aconteciam entre pretos e brancos, e era assim que deveriam continuar pois eu nunca poderia mudá-las e tinha até muita sorte de estar entre os escravos da casa, mais bem tratados do que os que viviam  na senzala grande (…).

Um Defeito de Cor/ Ana Maria Gonçalves/ Pág. 76/ Editora Record/ 2006

Noll

Aquele   sangue   nas   mãos   que   eu   devia   lavar   ali,   no   Guaíba.   Se   não,  desconfiariam.  Do  quê,  nem  eu  mesmo  sabia.  Lembro  que,  pouco  antes,  num lance  gratuito,  imaginara  que  tivesse  ficado  em  casa  estaria  em  melhor situação. Foi só então que vi as mãos cobertas de sangue. Olhei o rio, tentando escapar  da  circunstância.  Apesar do  estado  das  águas,  entrei  até  os  joelhos.  E  agora  só  me  restava  assobiar.  A  melodia  imprecisa,  o  dia  ameno,  parecendo  ileso. Pouco a pouco o assobio amortecia tudo. A noite logo mais me acolheria. Para que sonhar?

Sangue do Guaíba
Mínimos Múltiplos Comuns/ João Gilberto Noll/ Editora Francis/ 2003