Trampolim de Afetos

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Por ter vivido momentos-limite de tanta
intensidade, esse homem, personagem, ser, segue caminhando, não se consome; e por mais que caminhe, olhe, viva, sofra, é um homem comum. Afinal, tudo é tão simples…
Marcus Vinícius, Buenos Aires, janeiro de 2012

Abrir o baú de um amigo é mexer com as memórias, as histórias e os afetos. É o mesmo processo da Caixa de Pandora, mas no lugar de apresentar ao mundo todos os seus males vem à tona o talento, o orgulho e a saudade. Assim pode se resumir o processo de criação do livro “Marcus Vinícius: A Presença de Mundo em Mim”, organizado pelo professor Erly Vieira Jr, que seria o próximo curador/ orientador a trabalhar com Marcus Vinícius.

O trabalho não se realizou devido à partida repentina do artista em função de um mal súbito em uma viagem profissional a Istambul.  O livro funciona como um acerto de contas entre o curador e o artista, ao apresentar boa parte dos trabalhos realizados por MV – como era conhecido pelos amigos – por mais de 20 países entre os anos de 2007 e 2012.

O material reunido é praticamente inédito para a maioria dos leitores, já que boa parte dos trabalhos realizados por Marcus eram realizados in loco. Embora ele também tenha atuado como curador e pesquisador, o recorte da publicação se concentra na sua produção artística, especificamente nos campos da performance, da fotografia e do vídeo, áreas nas quais usava o próprio corpo para ampliar seu significado e transformá-lo simultaneamente em plataforma e obra de arte.

As 244 páginas da publicação apresentam um rico  material fotográfico e teórico, além de frames de vídeos, que reposiciona e imprime a real importância de Marcus Vinícius para as artes visuais no Espírito Santo, e também no Brasil, como afirma o ensaio crítico “As Múltiplas Estratégias do Corpo Segundo Marcus Vinícius”, texto inédito de Erly Vieira Jr para o livro.

“Ele foi um dos mais importantes nomes das artes visuais capixabas surgidos nos últimos 15 anos e que, no momento em que sua carreira foi subitamente interrompida, já começava a se firmar como uma voz relevante dentro da geração de performers brasileiros à qual pertenceu – tendo trilhado, inclusive, os estágios iniciais de uma promissora carreira internacional”.

Poética e tecnologia

Ao analisar as imagens dos trabalhos de Marcus Vinícius fica evidente o interesse dele em tratar de temas inerentes ao tempo pelo viés da delicadeza, mas que é diretamente oposto ao processo de execução das suas obras, que normalmente o direcionavam para situações limites em que a dor, as feridas e exaustão física eram comuns.

Exemplo disto é Frágil, performance em que ele caminhava pelas ruas da cidade coberto por um adesivo em que estava escrito a palavra título do trabalho. A sensação no olhar das pessoas era de estranheza e afeto enquanto ele inseria no espaço público algo entre a melancolia e a solidão cotidiana. Após a finalização do trabalho várias marcas ficaram por todo o seu corpo em função da fixação da cola do adesivo.

Outra obra em que a delicadeza está presente é Cicatrizes, trabalho em que ele usa uma construção inacabada e as curvas do próprio corpo como metáfora para as memórias pessoais que foram recolhidas cotidianamente e que são eternizadas em cada um de nós e permanecem de forma intrínseca, e por que não, eternas em cada um de nós.

Marcus também dialogava com todas as possibilidades do mundo virtual. Desde os extintos Fotolog e Orkut, até os atuais Facebook e Youtube, ele sempre usou as redes sociais e plataformas digitais como trampolim para estabelecer novos contatos, expor, documentar e popularizar seus trabalhos, ações que simbolizam os hábitos dos artistas de sua geração e refletem a independência da produção artística no campo das artes visuais. Além disso, mostram um artista em diálogo com as formas de comunicação contemporâneas.

Dos afetos

No início do texto eu cito a experiência de abrir os arquivos de um amigo. Digo isto, porque o processo de criação deste trabalho é uma mistura de reconhecimento, admiração e saudade. O livro foi editado por dois amigos de MV, a jornalista Aline Alves e eu, e contém entrevistas com os artistas Shima e Rubiane Maia, pessoas chave na construção do artista e também amigos e parceiros em diversos trabalhos.

O afeto permeia toda obra de Marcus Vinícius. Seu capital como pesquisador e curador eram norteados pelas relações que ele foi estabelecendo no decorrer da sua vida. Um de seus trabalhos mais emblemáticos foi o festival Trampolim, até hoje considerado um dos principais festivais de performance do Brasil, em que ele atuou como curador e artista.

Neste projeto ele reuniu mais de quarenta artistas, de várias partes do mundo, na cidade de Vitória. A maioria destes profissionais desembarcou na capital com um único objetivo: contribuir para a execução de um projeto experimental, que se tornou transgressor, a partir do talento e do capital sócio-afeitvo que MV exalava. Foi esse mesmo sentimento que nos fez unir forças e abrir para o mundo este grande baú de delicadezas em um trampolim de trabalhos movidos por afetos.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 13 de agosto de 2016, com o título “Um Grande Baú de Delicadezas”. 

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