MPBQueer e a nova identidade da música brasileira

Em tempos de representatividade, grupos sociais que sempre foram colocados em segundo plano – como os negros e as mulheres – estão cotidianamente amplificando sua voz . Dentro de coletivos, movimentos sociais e espaços de formação, a discussão e o empoderamento ganham cada vez mais força. “Minorias” que até pouco tempo eram ignoradas encontram, com muita luta, cada vez mais espaço.

A arte é um dos canais que serve de trampolim para este “abrir das portas”. O diálogo que a nova geração da música brasileira estabelece com a sexualidade e as questões de gênero e consequentemente, com a liberdade em ser o que quiser, exemplifica e desafia o que está pré-estabelecido.  Embora o rótulo não lhes caiba, o título “MPBQueer” surge como uma possível descrição sobre eles, que fogem ao senso comum sobre masculino e feminino.

Tendo como base a Teoria Queer – vertente que se popularizou a partir da publicação de “Problemas de Gênero”, da filósofa americana Judith Butler- que, resumidamente, pode ser definida como tudo que escapa às formulações habituais ou de senso comum, essa nova geração se destaca justamente pela pluralidade ao apresentar trabalhos musicais com sonoridades diversas, além de usar o corpo como plataforma para construção de novas imagens que valorizam a diversidade e ampliam o discurso relacionado às questões de gênero, em que normalmente se determina a inserção de um indivíduo na sociedade segundo normas específicas de ser “homem” ou “mulher”.

Falando sobre a música produzida no Brasil, a partir de artistas que se propõem a quebrar os padrões já determinados, é impossível não citar o nome de Ney Matogrosso. O cantor apareceu no início da década de 1970 e deixou uma interrogação na cabeça de muita gente, ao surgir com o peito peludo, dançando de forma sensual e usando uma série de elementos do universo feminino, como: maquiagem, penas e plumas, além da voz  aguda. Ney também abriu o debate para assuntos como, por exemplo, a homossexualidade, em entrevistas, músicas e na identidade visual de seu trabalho (a capa do disco “Feitiço”, de 1978).

Os novos

O pernambucano Johnny Hooker é o artista mais associado à figura de Ney Matogrosso. Suas apresentações ao vivo são sempre teatrais e arrojadas, do figurino a performance, dialogando com a estética difundida por Ney. Hooker se apropria do brega, do rock, do samba, do frevo e da passionalidade em suas canções, ao retratar as dores de amor de uma relação entre dois homens no álbum “Eu Vou Fazer uma Macumba pra te Amarrar, Maldito!”. Jaloo, vem do Pará, mistura tecnobrega ao universo pop, em canções deliciosas como “Insight”. O visual super colorido é um híbrido de referências que misturam peças masculinas e femininas, a cultura indígena e artistas como a cantora alemã Yo Landi Vi$$er.

Dialogando diretamente com o universo tropicalista a banda As Bahias e a Cozinha Mineira flerta com o samba, a bossa nova e o clube da esquina para abordar questões femininas em letras fortes. As vocalistas Assucena Assucena e Raquel Virgínia, transexuais, são uma espécie de Gal e Bethânia contemporâneas, donas de vozes imponentes e personalidades ímpares. Com um som sujo e que bebe do rock dos anos 1980 e da new wave a banda Verónica Decide Morrer, é liderada pela transexual Verónica Valenttino. Surgida em Fortaleza, une o  visual glam e o discurso afiado está em músicas como “Bicha Invejosa” e “Testemunho de Trava”.

No Espírito Santo, a cena musical encontra representatividade nas questões de gênero e sexualidade no audiovisual. O cantor Anderson Bardot interpreta um personagem que não pertence a nenhum gênero pré-definido no videoclipe da canção “Meus Vinte Anos”. Já Silva abre o debate para o amor livre e a sexualidade fluida em “Feliz e Ponto”. No clipe, ele tem uma relação com um homem e uma mulher.  

O funk, o rap e o soul ganham voz com o trio black power Rico Dalasam, MC Linn da Quebrada e Liniker. Dalasam, que apareceu em batalhas de MC em São Paulo, reafirma em suas composições a negritude e  a homossexualidade, tanto no visual fashionista quanto nas músicas, como no rap ostentação “Riquíssima”. Linn usa a música – e o teatro – para criar um diálogo com quem, como ela, decidiu existir como bem quer. “Talento” é um exemplo do discurso reto e das rimas sem meias palavras da MC.

Mas, talvez a figura mais emblemática da nova geração seja Liniker. Criado em família de músicos na periferia paulista e com mais de cinco milhões de acessos apenas no vídeo da música “Zero”, ele não se define como “ele” ou “ela”. Negrx , usa saia, batom e turbante, e empresta sua voz grave para o recém-lançado “Remonta”, álbum em parceria com a banda Caramelows, realizado por meio de financiamento coletivo com quase o dobro da meta estabelecida.

As apresentações lotadas desses artistas confirmam o sucesso e o entendimento do público sobre essas novas propostas artísticas. Mesmo diante de um período de intenso conservadorismo pelo qual passa o país, a escolha involuntária desta geração de artistas reunidos pelo mesmo discurso – já que nunca houve um movimento organizado com o objetivo de abordar essas questões – prova que música de qualidade atrelada a possibilidade de escolher ser o que se quer, ainda gera lucros para a arte. E para a vida.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 22 de outubro de 2016, com o título “Uma Nova Identidade”. 

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Trampolim de Afetos

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Por ter vivido momentos-limite de tanta
intensidade, esse homem, personagem, ser, segue caminhando, não se consome; e por mais que caminhe, olhe, viva, sofra, é um homem comum. Afinal, tudo é tão simples…
Marcus Vinícius, Buenos Aires, janeiro de 2012

Abrir o baú de um amigo é mexer com as memórias, as histórias e os afetos. É o mesmo processo da Caixa de Pandora, mas no lugar de apresentar ao mundo todos os seus males vem à tona o talento, o orgulho e a saudade. Assim pode se resumir o processo de criação do livro “Marcus Vinícius: A Presença de Mundo em Mim”, organizado pelo professor Erly Vieira Jr, que seria o próximo curador/ orientador a trabalhar com Marcus Vinícius.

O trabalho não se realizou devido à partida repentina do artista em função de um mal súbito em uma viagem profissional a Istambul.  O livro funciona como um acerto de contas entre o curador e o artista, ao apresentar boa parte dos trabalhos realizados por MV – como era conhecido pelos amigos – por mais de 20 países entre os anos de 2007 e 2012.

O material reunido é praticamente inédito para a maioria dos leitores, já que boa parte dos trabalhos realizados por Marcus eram realizados in loco. Embora ele também tenha atuado como curador e pesquisador, o recorte da publicação se concentra na sua produção artística, especificamente nos campos da performance, da fotografia e do vídeo, áreas nas quais usava o próprio corpo para ampliar seu significado e transformá-lo simultaneamente em plataforma e obra de arte.

As 244 páginas da publicação apresentam um rico  material fotográfico e teórico, além de frames de vídeos, que reposiciona e imprime a real importância de Marcus Vinícius para as artes visuais no Espírito Santo, e também no Brasil, como afirma o ensaio crítico “As Múltiplas Estratégias do Corpo Segundo Marcus Vinícius”, texto inédito de Erly Vieira Jr para o livro.

“Ele foi um dos mais importantes nomes das artes visuais capixabas surgidos nos últimos 15 anos e que, no momento em que sua carreira foi subitamente interrompida, já começava a se firmar como uma voz relevante dentro da geração de performers brasileiros à qual pertenceu – tendo trilhado, inclusive, os estágios iniciais de uma promissora carreira internacional”.

Poética e tecnologia

Ao analisar as imagens dos trabalhos de Marcus Vinícius fica evidente o interesse dele em tratar de temas inerentes ao tempo pelo viés da delicadeza, mas que é diretamente oposto ao processo de execução das suas obras, que normalmente o direcionavam para situações limites em que a dor, as feridas e exaustão física eram comuns.

Exemplo disto é Frágil, performance em que ele caminhava pelas ruas da cidade coberto por um adesivo em que estava escrito a palavra título do trabalho. A sensação no olhar das pessoas era de estranheza e afeto enquanto ele inseria no espaço público algo entre a melancolia e a solidão cotidiana. Após a finalização do trabalho várias marcas ficaram por todo o seu corpo em função da fixação da cola do adesivo.

Outra obra em que a delicadeza está presente é Cicatrizes, trabalho em que ele usa uma construção inacabada e as curvas do próprio corpo como metáfora para as memórias pessoais que foram recolhidas cotidianamente e que são eternizadas em cada um de nós e permanecem de forma intrínseca, e por que não, eternas em cada um de nós.

Marcus também dialogava com todas as possibilidades do mundo virtual. Desde os extintos Fotolog e Orkut, até os atuais Facebook e Youtube, ele sempre usou as redes sociais e plataformas digitais como trampolim para estabelecer novos contatos, expor, documentar e popularizar seus trabalhos, ações que simbolizam os hábitos dos artistas de sua geração e refletem a independência da produção artística no campo das artes visuais. Além disso, mostram um artista em diálogo com as formas de comunicação contemporâneas.

Dos afetos

No início do texto eu cito a experiência de abrir os arquivos de um amigo. Digo isto, porque o processo de criação deste trabalho é uma mistura de reconhecimento, admiração e saudade. O livro foi editado por dois amigos de MV, a jornalista Aline Alves e eu, e contém entrevistas com os artistas Shima e Rubiane Maia, pessoas chave na construção do artista e também amigos e parceiros em diversos trabalhos.

O afeto permeia toda obra de Marcus Vinícius. Seu capital como pesquisador e curador eram norteados pelas relações que ele foi estabelecendo no decorrer da sua vida. Um de seus trabalhos mais emblemáticos foi o festival Trampolim, até hoje considerado um dos principais festivais de performance do Brasil, em que ele atuou como curador e artista.

Neste projeto ele reuniu mais de quarenta artistas, de várias partes do mundo, na cidade de Vitória. A maioria destes profissionais desembarcou na capital com um único objetivo: contribuir para a execução de um projeto experimental, que se tornou transgressor, a partir do talento e do capital sócio-afeitvo que MV exalava. Foi esse mesmo sentimento que nos fez unir forças e abrir para o mundo este grande baú de delicadezas em um trampolim de trabalhos movidos por afetos.

*Texto originalmente publicado no caderno Pensar, do jornal A Gazeta, em 13 de agosto de 2016, com o título “Um Grande Baú de Delicadezas”.